Ademir Luiz: “Dicionário Cínico” explica as “Palavras da Moda”

O “Dicionário Cínico das Palavras da Moda”, inspirado no lendário “Dicionário do Diabo”, de Ambrose Bierce, é uma obra de humor sobre as palavras e expressões do atual cenário linguístico global. Além da parte escrita, por Ademir Luiz, a obra também conta com arte de capa do lendário cartunista Adão Iturrusgarai, e letras capitulares do escritor, cartunista e humorista Edson Aran.

Ademir Luiz é uma figura que se destaca no cenário da cultura em Goiás. Presidente da União Brasileira de Escritores (UBE) Seção Goiás e ocupante da cadeira 31 da Academia Goiana de Letras (AGL), o tem diversas publicações. Uma das que mais gerou polêmicas e opiniões foi o Dicionário Cínico das Palavras da Moda.

De acordo com o autor, inclusive, por ser escrito em verbetes, o livro de comédia não deixa de ser um dicionário, na definição da palavra. “A ideia é tentar, então, mapear como o mundo contemporâneo pensa a partir das palavras que estão na moda”, disse o escritor.

Vamos dar uma olhada em alguns exemplos que fazem parte do livro?

  • Atrasados do ENEM: atração turística anual. Desculpa perfeita para parecer empático recriminando quem se diverte abertamente. Pessoas que perderam a desculpa do horário de verão.
  • Baixar: leituras futuras que nunca chegam. Vídeos consumidos instantaneamente.
  • Bullying: darwinismo escolar.
  • Cerveja artesanal: cerveja sem ISO 9001. A regra social exige que, em qualquer caso, seja considerada melhor que o produto industrializado.
  • Chef: cozinheiro com camisa xadrez, barba de lenhador e coque de samurai. Produz cerveja artesanal.
  • Comunidade: favela em novelas do horário nobre e relatórios da ONU.
  • Coach: guru com roupa de moletom. Modelo socialmente aceitável de exercício ilegal de diversas profissões. Alguém que acredita ser um sábio porque possui a sabedoria e a humildade de se saber um sábio. Profissional que um dia vai escrever um livro ou, em casos extremos, um dia vai ler um livro.
  • Cult: filme, livro ou banda que apenas você e seu amigo esquisito conhecem.
  • Desconstrução: padrão ético autolimpante. Rebute automático de todas as postagens que poderiam ser usadas como provas contra você.
  • ENEM: todas as opções acima.
  • Estado democrático de direito: fórmula mágica para começar e terminar discursos. 
  • Gabarito do ENEM: tudo que parecia óbvio antes do candidato entrar na sala de provas.
  • Gatilho: cenas, temas e frases que pagam o aluguel de seu psicólogo.
  • Geeks: nerds que sabem formatar o computador.
  • Gênero: todas as letras do alfabeto sem ordem alfabética.
  • Gourmetizar: maquiavélica tática capitalista para inflacionar preços.
  • Google: biblioteca frequentada por jovens.
  • Gratidão: obrigado para pessoas com deficiência cognitiva.
  • Gratiluz: obrigado para pessoas com deficiência cognitiva severa. 
  • Hacker: Indivíduo que vê seus nudes antes de você enviá-los.
  • Harmonização facial: Procedimento estético usado com o objetivo de transformar todos os usuários em personagens desenhados por John Byrne.
  • Hater: 1. Pessoa que você não adicionou em sua rede social. 2. Pessoa que você adicionou em sua rede social.
  • Holograma: 1. Parece, mas não é. 2. Fantasma tecnológico. 3. Ectoplasma de luz.nga
  • Home office: 1. Trabalhar só de cueca ou calcinha. Ou sem. 2. Potencializador de obesidade e alcoolismo.
  • Illuminati: Indivíduo pertencente a uma socie- dade secreta que alcançou fama suficiente para inspirar best sellers e personagens da Marvel.
  • Justiceiro social: 1. Indivíduo que acredita, ou quer que acreditem, que ele é moralmente superior. 2. Linchador profissional, com conta no Twitter e bolsa de estudo.
  • K-pop: Menudos fabricados na Coreia do Sul, sem acréscimo de glúten ou testosterona.
  • Like: Equivalente contemporâneo à estrelinha que você recebia da professora no jardim da infância.
  • Mamadeira de piroca: Aleitamento paterno.
  • Mamilo: Parte mais polêmica da anatomia humana.
  • Nerd: 1. Resultado da profecia “os humilhados serão exaltados”. 2. Pessoa em quem você batia e que se tornou seu chefe. 3. Indivíduo que discute seriamente a biografia de personagens fictícios.
  • Newsletter: Spam encomendado.
  • Nudes: Forma gráfica de dizer “oi” em linguagem contemporânea.
  • Nuvem: HD externo emprestado que você não sabe onde está, menos confiável que o HD externo sobre a sua mesa.
  • Pé de Toddy: Uso indevido e depreciativo de marca registrada.
  • Perfil fake: Espionagem social.
  • Quarentena: 1. Teste de relacionamentos. 2. Regime de engorda. 3. Intervalo necessário para deixar os cabelos crescerem suficientemente para postar uma foto nas redes sociais, de modo a explicitar sua resiliência e gerar curtidas e reações elogiosas e incentivadoras na área de comentários.
  • Rede social: 1. Solidão compartilhada. 2. Exercício de criação de universos ficcionais. 3. Funil de vida.
  • Red pill: 1. Clube do Bolinha onde se serve Campari. 2. Desculpa para homens que não entendem nada de mulheres não precisarem entender nada de mulheres sem se sentirem perdedores. 3. Descoberta e aceitação de uma verdade inconveniente engolida a seco, se for filiada ao sentido apresentado no filme “Matrix”.
  • Sugar baby: A profissão mais antiga do mundo, sem penetração.
  • Sugar daddy: Vingança do tio da Sukita.
  • Sugar mommy: Milf via contrato verbal.
  • Teoria da conspiração: Algo entre interpretação criativa da realidade, acesso privilegiado a documentos, saber ligar os pontos e visão além do alcance.
  • Uber: 1. Carona paga. 2. Empresa internacional de transporte que não possui nenhum veículo auto- motor em seu patrimônio declarado.
  • Universo paralelo: Onde tudo deu certo.
  • URSAL: Acrônimo para União das Republiquetas Socialistas da América Latina. Organização maligna arqui-inimiga do super-herói Capitão Cabo Daciolo.
  • Vai para Cuba: Sonho de consumo da militância de esquerda. Paradoxalmente, é usado de modo pejorativo e ofensivo contra ela pela direita.
  • WhatsApp: Vida portátil.
  • Whey Protein: Comida de astronauta consumida na Terra.
  • Xerox: Fotocópia sem pagar direitos autorais.
  • Yoga: Contorcionismo por razões religiosas, sociais ou estéticas.
  • Youtuber: 1. Profissão que depende sempre de um mesmo e único empregador. 2. Futuro de todo professor.
  • Zerar a vida: 1. Encontrar um ídolo, realizar um desafio ou visitar um lugar que considera especial, até encontrá-lo, realizá-lo ou visitá-lo. 2. Momento anterior à decepção.
  • Zona de conforto: Desativar os comentários da sua postagem.

Relembre a entrevista do autor no Opção Play:

Doutor em história e professor da Universidade Estadual de Goiás, Ademir Luiz é uma figura que se destaca no cenário da cultura em Goiás / Confira a entrevista completa no Opção Play, nossa playlist de entrevistas no YouTube

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