Altar ou palanque: Veja o que pensam os evangélicos sobre a participação da igreja e de seus líderes na política

A participação das igrejas evangélicas e de seus líderes na política tem sido um tema de grande debate nos últimos anos. No Brasil, o crescimento das bancadas religiosas no Congresso Nacional e a influência de pastores e bispos sobre seus fiéis têm moldado o cenário político de maneira significativa.

Muitos líderes evangélicos se posicionam abertamente sobre questões morais, sociais e econômicas, buscando representar os valores cristãos na esfera pública. Esse envolvimento tem gerado tanto apoio quanto críticas entre os fiéis, refletindo a diversidade de opiniões dentro da própria comunidade evangélica.

Para muitos fiéis, a presença de líderes religiosos na política é vista como uma maneira de garantir que princípios cristãos sejam preservados na legislação e nas políticas públicas. Questões como a defesa da família tradicional, a luta contra o aborto e a valorização de preceitos bíblicos são pautas frequentemente defendidas por políticos ligados a igrejas evangélicas. Para esse grupo de eleitores, a atuação desses representantes é essencial para barrar projetos que possam ir contra seus valores e crenças, tornando a política uma extensão da fé.

Por outro lado, há evangélicos que avaliam com preocupação a mistura entre religião e política. Eles temem que a fé seja usada como ferramenta de manipulação eleitoral, beneficiando certos líderes mais interessados em poder e influência do que no bem-estar da população. Além disso, há receio de que a igreja perca seu foco espiritual ao se envolver excessivamente em disputas políticas, o que poderia comprometer sua missão original de evangelização e assistência social.

A avaliação dos membros sobre essa participação também varia conforme a experiência e o contexto social. Em algumas comunidades, a presença de líderes religiosos na política é vista como positiva, pois pode trazer benefícios diretos, como projetos sociais e melhorias para bairros carentes. Em outras, especialmente entre os mais jovens e instruídos, há um questionamento maior sobre até que ponto a igreja deve interferir no governo e nas decisões políticas. Essa diversidade de perspectivas mostra que os evangélicos não são um grupo homogêneo em relação ao tema.

Bolsonaro e Michele recebem oração l Foto: Reprodução

Dessa forma, a participação das igrejas evangélicas e seus líderes na política continua sendo um assunto complexo e controverso. Enquanto alguns veem essa atuação como fundamental para a defesa de valores cristãos, outros consideram preocupante a influência religiosa sobre decisões governamentais.

O desafio está em equilibrar a liberdade de expressão e a representatividade religiosa sem comprometer o caráter laico do Estado, ou seja, sem beneficiar essa ou aquela denominação, garantindo que a política atenda a toda a população, independentemente de crenças.

O Jornal Opção ouviu especialistas e diversos membros de denominações diferentes para saber o que realmente pensam sobre o tema.

Há um jogo de interesses entre igreja e política

Para o comerciante Gleison Borges Feliz, 43 anos, que frequenta uma igreja evangélica, essa aproximação não se dá, necessariamente, por preocupação com o bem coletivo.

“A questão da política com a religião, na minha opinião, envolve muito interesse. Interesse tanto da igreja quanto dos políticos”, afirma. De acordo com ele, existe um jogo de interesses de ambas as partes, e a população acaba não sendo a prioridade. “Eles pensam na população, mas não como prioridade, quando deveria ser”, critica.

Gleison Borges: “a igreja não deveria servir de palanque para candidatos”, l Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

Gleison também observa que, durante os períodos eleitorais, a presença de políticos dentro das igrejas se torna mais frequente. “A gente percebe que, na época das eleições, começam a aparecer mais nas igrejas. Vereadores e outros políticos passam a frequentar os cultos, colocando pastores e líderes religiosos em evidência”, aponta.

Para ele, a igreja não deveria servir de palanque para candidatos. “Não acho certo esse interesse escancarado. A igreja não deveria dar esse espaço”, opina.

O comerciante também defende que os eleitores evangélicos não devem votar apenas em candidatos da mesma fé. “Ser crente não significa estar ileso de falhas. E quem não é crente hoje pode vir a ser. Existem pessoas boas em todos os segmentos, independentemente da religião”, conclui.

Os cristãos podem e devem se envolver na política

Juliana Xavier Rodrigues, 35 anos, empreendedora e membro da Assembleia de Deus Ministério de Madureira, defende a participação de cristãos na política, mas alerta para os desafios éticos desse envolvimento.

“Acredito que, como cidadãos, temos deveres, e um deles é votar e escolher nossos representantes. Isso faz parte da nossa existência aqui na Terra. Se é nosso dever, então os cristãos podem e devem se envolver na política”, afirma Juliana.

Para ela, a presença de parlamentares evangélicos tem sido crucial para barrar projetos que poderiam, segundo sua visão, impactar negativamente valores cristãos. “Graças à bancada evangélica, muitos projetos não foram adiante, especialmente aqueles relacionados a ideologias de gênero nas escolas”, ressalta.

Juliana Xavier : “os pastores devem orientar os fiéis” l Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

No entanto, Juliana também reconhece os riscos que o cenário político apresenta. “Infelizmente, sabemos que há corrupção, caixa dois e outros esquemas. Muitas vezes, alguém entra na política com um propósito correto, mas acaba se corrompendo pelo poder e pelo dinheiro”, pondera.

Sobre o papel da igreja nesse contexto, ela acredita que os pastores devem orientar os fiéis, mas sem impor uma posição. “O dever do pastor é mostrar os fatos para a igreja, pois há muita gente que, mesmo com acesso à informação, ainda é leiga. Mas a escolha do voto é individual”, enfatiza.

Quanto à candidatura de pastores, Juliana se posiciona contra. “O pastor já tem um ofício muito profundo, que é cuidar de pessoas. Misturar isso com política não é adequado”, opina.

Por fim, ela reforça que a decisão política deve estar alinhada aos valores de cada cristão. “Se eu sou contra o aborto, por exemplo, e voto em alguém cujo partido defende essa pauta, estou indo contra meus próprios princípios. O pastor pode orientar sobre isso, mas a decisão final é de cada um”, conclui.

Religião e política são assuntos distintos e não deveriam se misturar’

A relação entre religião e política é um tema que gera debates acalorados na sociedade. Para Mirian Miranda dos Santos Rodrigues, dona de casa de 37 anos e frequentadora da Congregação Cristã do Brasil, essa interseção não deveria existir.

“Eu acho que não deveria existir envolvimento da religião com a política, porque são assuntos distintos. Acredito que a religiosidade não deveria estar atrelada à política, até mesmo por questão de corrupção e mentiras. Se a gente crê na religião que seguimos, acreditamos que Deus não é Deus de mentira. E a política, infelizmente, é cheia de tudo aquilo que vai contra o que a religião prega”, afirma Mirian.

A dona de casa ressalta que, embora a política faça parte da vida das pessoas, assim como a religião, os dois campos não devem ser confundidos. “A gente, como cidadão, tem a obrigatoriedade de votar e de estar a par do que acontece no mundo político. No entanto, a religião, às vezes, influencia muito na decisão do cristão. Muitas vezes, ele se sente coagido pela figura maior da igreja, que apoia determinado candidato, e isso pode levar à mistura entre os dois campos.”

Mirian Miranda: “Nenhum membro comum da igreja deveria se candidatar” l Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

Sobre o comportamento dos fiéis nas urnas, Mirian acredita que “o crente deve votar em pessoas que apresentem propostas condizentes com aquilo que ele espera para a vida, como melhorias na educação, na saúde e na segurança pública. Mas isso é para toda a sociedade, não apenas para crentes ou não crentes”.

Ela também destaca o impacto da ideologia na decisão do eleitorado: “Hoje em dia, a questão ideológica fala muito alto. As pessoas se dividiram entre direita e esquerda por questão de ideologia. Mas eu acredito que a religião deveria estar de fora disso”.

Quando questionada sobre a candidatura de pastores e outros líderes religiosos, Mirian é enfática: “Não concordo. Nenhum membro comum da igreja deveria se candidatar. Não concordo com nenhuma pessoa inserida no meio evangélico se candidatando”.

A igreja deve participar da sociedade, mas sem transformar o altar em palanque

Para o pastor e músico Rodney Graciano Ferreira, do Ministério Pedras Vivas da Igreja Fonte da Vida, a participação da igreja na sociedade é fundamental, mas deve ocorrer de forma equilibrada.

“A igreja não pode se omitir. Se ficarmos à margem, sem participação, não há como trazer uma transformação social”, afirma Rodney. Segundo ele, o papel da igreja vai além das quatro paredes dos templos e deve se estender para influenciar positivamente a sociedade com os princípios cristãos.

Rodney Graciano: “a participação da igreja na sociedade é fundamental” l Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

No entanto, o pastor pondera que essa participação não significa transformar o altar em um palanque político. “A igreja deve se envolver, sim, mas através do voto, da participação ativa na sociedade. O altar, porém, é para pregar a palavra de Deus, levar a mensagem do evangelho e a verdade. Não vejo necessidade de usá-lo como um espaço para discursos políticos”, ressalta.

Questionado sobre a influência dos líderes religiosos na decisão de voto dos fiéis, Rodney nega que haja qualquer tipo de imposição. “Os membros têm total liberdade para analisar os candidatos e fazer sua escolha. A orientação é importante, mas ninguém é obrigado a votar em determinado candidato”, explica.

Sobre a escolha dos representantes, o pastor defende que o mais relevante é a conduta do político, e não necessariamente sua religião. “O cristão pode votar tanto em crentes quanto em pessoas que, mesmo não sendo cristãs, tenham princípios corretos, valores cristãos e realmente queiram trabalhar pela sociedade. O essencial é que o candidato tenha preparo e compromisso com a justiça e a mudança”, conclui.

Religião e política não devem se misturar

Silvia Regina Marques, 58 anos, frequentadora da Igreja Universal do Reino de Deus, expressa preocupação com o envolvimento de líderes religiosos na política. Para ela, essa relação pode representar um risco de manipulação e comprometer a credibilidade da igreja.

Silvia Regina: “ssa relação pode representar um risco de manipulação e comprometer a credibilidade da igreja” l Foto: Arquivo pessoal

“Existe o perigo de a religião ser usada como uma ferramenta de manipulação política, com líderes apoiando certos partidos ou candidatos em troca de vantagens pessoais ou políticas”, alerta Silvia.

Ela também discorda da candidatura de pastores a cargos políticos, apontando possíveis consequências negativas. “Não concordo com pastores se candidatando. A credibilidade da igreja fica em risco, e as decepções envolvendo líderes religiosos na política podem ampliar divisões e gerar conflitos dentro da própria comunidade”, ressalta.

Apesar disso, Silvia reconhece que algumas pessoas veem na igreja um papel moral na orientação política dos fiéis. No entanto, acredita que a influência religiosa não deve significar participação direta na política. “Líderes religiosos têm um papel importante em questões sociais, culturais e morais, mas isso não significa que precisem estar diretamente envolvidos na política para que a sociedade funcione de maneira justa e democrática”, conclui.

Membro presbiteriano defende envolvimento consciente da igreja na política

Rodrigo Jerônimo Alves Parreira, de 45 anos, membro da Igreja Presbiteriana do Brasil, defende que algum nível de envolvimento da igreja e de seus líderes com a política é necessário. No entanto, alerta sobre os riscos de transformar a pregação em discurso meramente político.

“Se o cristão, assim como qualquer cidadão, não se envolve de forma alguma na política, quer seja defendendo publicamente seu posicionamento ou candidatando-se a um cargo eletivo, depois não poderá reclamar dos rumos do país”, afirmou Parreira.

Entretanto, ele ressalta que é um erro substituir a exposição do evangelho pela pregação de cunho político. “Muitas vezes, caímos no extremo de trocar a mensagem da Bíblia por um discurso meramente político, o que é errado”, disse.

Rodrigo Jerônimo: “”Se a pessoa realmente tem chamado para ser pastor, deve se dedicar exclusivamente à função” l Foto: Arquivo pessoal

Sobre a possibilidade de pastores concorrerem a cargos públicos, Parreira é enfático ao defender a dedicação exclusiva ao ministério religioso. “Se a pessoa realmente tem chamado para ser pastor, deve se dedicar exclusivamente à função. Se entende que deve se candidatar, então o correto é renunciar ao pastorado. É impossível que alguém, ao mesmo tempo, cuide de ovelhas e seja representante do povo. Com certeza, nessa equação, quem sai perdendo são as ovelhas”, destacou.

Parreira afirma que, embora não seja obrigatório que a igreja tenha representantes próprios na política, é fundamental que cristãos escolham candidatos alinhados às Escrituras. “Que moral um cristão tem para falar do evangelho se ajuda a eleger alguém que milita contra o que a Bíblia instrui?”, questiona.

Sobre o comportamento dos fiéis nas urnas, ele avalia que isso depende do tipo de líder que conduza a congregação. “Quando a congregação tem líderes que usam o púlpito como palanque político, a tendência é que a massa vote por obediência e pressão, o que é errado”, explica.

Para evitar essa situação, ele defende que os líderes devem se ater à pregação do evangelho, sem influenciar os fiéis de maneira impositiva. “Não é proibido que os líderes manifestem suas posições políticas, mas isso deve ser feito a nível de diálogo e não como uma imposição”, pondera.

Parreira lembra que a Bíblia oferece diretrizes também para a vida política. “A Bíblia é um manual para todas as áreas da existência humana, incluindo a política”, citando passagens como Mateus 22:21, 1 Timóteo 2:1-3 e Romanos 13:1-7.

Para ele, os cristãos devem conduzir sua vida política de acordo com o ensinamento de 1 Coríntios 10:31: “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus”.

Por fim, citando o teólogo francês João Calvino, Parreira alerta para a responsabilidade do voto: “E vós, ó povos, a quem Deus deu a liberdade de escolher seus próprios governantes, cuidem-se de não se privarem deste favor, elegendo para a posição de mais alta honra, patifes e inimigos de Deus”.

A igreja deve se envolver na política

Para André Luiz Gonçalves, 47 anos, membro da Igreja Palavra de Vida, a participação da igreja na política é fundamental. “A igreja tem que se envolver, sim, na política e nos posicionar como verdadeiros cristãos”, afirma. Segundo ele, essa postura está alinhada com valores da direita e deve ser reforçada com a candidatura de líderes religiosos.

André Luiz: “”A igreja tem que se envolver, sim, na política” l Foto: Arquivo pessoal

“Concordo que pastores também se candidatem para nos representar, pois precisamos de pessoas com conhecimento da palavra”, destaca, referindo-se à Bíblia como base para a atuação política cristã.

Ele também aponta uma mudança na forma como os fiéis votam. “Antigamente, os cristãos votavam por obediência, medo e até por falta de conhecimento”, avalia. No entanto, segundo ele, esse cenário mudou. “Hoje, creio que a maioria vota por convicção própria, até porque temos ‘pastores de esquerda’, o que é inadmissível para quem conhece minimamente as escrituras”, conclui.

Membro crítica participação de cristãos na política

Pedro Carlos de Araújo, de 59 anos, membro da Igreja Filadélfia da Fé, expressou com veemência sua opinião contrária ao envolvimento de cristãos na política. Segundo ele, o ambiente político é incompatível com os princípios da fé cristã.

“Crente envolvendo em política? Eu nunca concordei, meu irmão. Política é coisa suja”, afirmou. Para Pedro Carlos, mesmo quem entra na política com boas intenções acaba se corrompendo pelo sistema. “A pessoa pode até chegar lá com bons planos, mas quando chega, a sujeira já está pronta. Ele tem que concordar com tudo se quiser permanecer”, declarou.

Pedro Carlos: “Pedro criticou a prática de campanhas eleitorais dentro das igrejas” l Foto: Arquivo pessoal

O fiel acredita que o envolvimento com o meio político compromete a integridade de qualquer cristão. “Crente que é crente mesmo, que é cristão, não pode ser político, não pode se envolver com política. Está errado. Essa é a minha opinião”, reforçou.

Pedro também criticou a prática de campanhas eleitorais dentro das igrejas. Para ele, o espaço sagrado deve ser reservado exclusivamente para a pregação da palavra de Deus. “Pode até não obrigar os membros a votarem, mas ficam fazendo campanha política dentro da igreja. Isso está muito fora dos planos de Deus”, disse. “Igreja é para falar de Deus, não de política.”

Ao comentar sobre a reputação de quem decide entrar na vida pública, Pedro Carlos foi categórico: “Você conhece o Pedro, sabe que ele é honesto, sério, correto. Mas aí dizem: ‘ele virou político’. A política suja o nome da pessoa, esse é o problema.”

Ele conclui seu desabafo afirmando que, para se manter na política, o cristão precisa “concordar com a sujeira” do sistema. “Se ele não concordar, não trabalha, os projetos não vingam, ninguém assina nada. Esse é o meu pensamento sobre a política”, finalizou.

Pastor critica politização excessiva nas igrejas

O pastor Pedro Alves de Souza, da Assembleia de Deus Ministério de Vila Nova, se posicionou de forma crítica sobre o envolvimento da igreja com a política, especialmente durante os períodos eleitorais.

“Acredito que a igreja ainda não diferencia a política da ‘politicagem’, do toma-lá-dá-cá. Muitos votam pensando apenas em benefícios próprios”, afirmou o pastor. Embora defenda a presença de representantes cristãos nas casas legislativas, ele ressalta que esses parlamentares não devem legislar em causa própria ou apenas para atender aos interesses de líderes religiosos.

Sandro Mabel recebe oração do Pr. Josué Gouveia l Foto: Cilas Gontijo/Jornal Opção

Para Pedro Alves, os líderes e pastores deveriam adotar uma postura mais discreta durante o processo eleitoral. “Eles deveriam se ater a orientar os membros apenas sobre em quem não votar, por questões ideológicas, e não impor nomes específicos”, disse.

Sobre sua própria experiência, o pastor admite que já votou em candidatos indicados por líderes religiosos por uma questão de lealdade. “Já votei por obediência, às vezes contra a minha vontade”, revelou.

Ele também comentou sobre a forma como os fiéis são conduzidos durante as eleições. “Eu não diria que são pressionados, mas há uma orientação massiva. É quase como uma imposição velada”, avaliou.

Apesar disso, o pastor acredita que muitos membros não seguem essas orientações cegamente. “Acredito que os membros, em geral, não obedecem”, declarou.

Por fim, Pedro Alves deixou clara sua posição contrária à candidatura de líderes eclesiásticos. “Sou absolutamente contra pastores dirigentes se candidatarem a qualquer cargo político. Sou, sim, a favor de que qualquer membro da igreja exerça função política. Mas o foco da igreja precisa ser o espiritual, e não a politicagem”, concluiu.

É importante termos representantes com nossos valores

Lucas Cavalcante, 32 anos, membro da Igreja Videira, acredita que a presença de cristãos comprometidos na política é algo positivo, desde que respeitados os limites entre as funções espirituais e públicas.

“Acredito que o pastor não pode ser o político em específico, ele precisa cuidar do pastoreio. Porém, é importante que existam homens com compromisso com as causas que defendemos atuando no cenário político”, afirmou Lucas.

Apesar da relação entre fé e política, ele garante que há liberdade dentro da igreja para escolher em quem votar, mesmo diante de indicações de líderes religiosos. “Eu avalio as propostas de quem diz que vai atrás das causas que acredito. Se forem semelhantes às minhas, eu voto”, disse.

Lucas Cavalcante: “A igreja apresenta os candidatos, mas me sinto livre para escolher” l Foto: Arquivo pessoal

Questionado se há pressão por parte dos líderes para seguir determinadas orientações políticas, Lucas é categórico: “Tem liberdade. Às vezes, vários membros da mesma igreja se candidatam, além de parentes ou amigos. A igreja apresenta os candidatos, mas me sinto livre para escolher.”

Sobre a influência que os pastores exercem no voto dos fiéis, ele compara com o ambiente corporativo: “Como numa entrevista de emprego, se tem uma indicação e a pessoa é de confiança, me sinto mais confortável em aceitar. Acredito que possa haver líderes em outros locais que pressionem, mas isso não acontece comigo no meio em que convivo.”

Lucas também se mostra favorável à presença de representantes cristãos nas casas legislativas, como câmaras municipais, assembleias estaduais, Congresso e Senado. “Sim, um representante, como ocorre com outras causas, é viável. Alguém que esteja atento ao que acontece para tomar decisões importantes.”

No entanto, ele não acredita que tais representantes precisem, necessariamente, ser evangélicos. “Não. Precisa ser alguém de extrema confiança. E, mesmo assim, é preciso acompanhar de perto o mandato, fiscalizando se realmente está fazendo o que prometeu.”

Por fim, Lucas destaca que o envolvimento político da igreja não deve comprometer o foco espiritual. “O culto não é palanque. É lugar de oração e palavra de Deus. Orar por quem deseja ingressar na política é válido. Mas dar o microfone para essas pessoas durante o culto é perda de tempo”, concluiu.

Influência política de evangélicos cresceu nas últimas décadas, afirma pesquisador

O envolvimento das igrejas evangélicas na política brasileira passou por uma transformação profunda nas últimas três décadas. É o que aponta Giovani Ribeiro Alves, escritor e mestrando em Ciências da Religião pela PUC-GO. Segundo ele, o cenário atual é bem diferente do que se via até os anos 1990.

“Nos últimos trinta anos houve uma mudança significativa no meio das igrejas evangélicas em relação ao envolvimento político”, afirma Ribeiro. “Antes, o engajamento tanto dos líderes quanto dos membros era discreto, e poucos representantes conseguiam ser eleitos.”

Giovani Ribeiro Alves: “Nos últimos trinta anos houve uma mudança significativa no meio das igrejas evangélicas em relação ao envolvimento político” l Foto: Arquivo pessoal

Ele cita como exemplo o caso do psicólogo e deputado Antônio de Jesus Dias, afrodescendente e membro da Assembleia de Deus Ministério de Madureira em Goiânia, que conseguiu atuar como deputado estadual e como deputado federal constituinte, em um período em que a presença evangélica na política era ainda tímida.

A partir da década de 1990, no entanto, esse panorama começou a mudar. “Diversas igrejas evangélicas passaram a indicar vários representantes para concorrerem aos mais variados cargos políticos”, explica Giovani Ribeiro. Segundo ele, essa movimentação veio acompanhada de uma influência crescente de líderes religiosos sobre o voto dos fiéis.

“Embora nem sempre atuem de forma coercitiva, muitos líderes, pela posição e autoridade que exercem, acabam conseguindo eleger os candidatos que indicam”, observa.

Em Goiás, Ribeiro destaca o caso do bispo Oídes José do Carmo, pastor presidente da Assembleia de Deus do Campo de Campinas e presidente da Convenção dos Ministros da Assembleia de Deus de Madureira no estado. “Hoje, ele é um dos maiores líderes evangélicos de Goiás, com grande poder de influência nas eleições dentro do segmento”, diz o pesquisador.

Entre os políticos ligados à Assembleia de Deus que alcançaram destaque no estado, ele menciona os vereadores Oséias Varão e Léia Klébia, o deputado estadual Henrique César, o deputado federal Glaustin da Fokus, o senador Vanderlan Cardoso e o prefeito de Bela Vista de Goiás, Eurípides do Carmo.

Professor analisa a Influência do voto religioso na política brasileira

O envolvimento das igrejas na política e a influência dos líderes religiosos sobre o voto de seus fiéis são temas amplamente debatidos no campo das ciências sociais. Para Flávio Munhoz Sofiati, professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás, a questão do “voto evangélico” deve ser analisada com cautela.

“Já discutimos esse tema há algum tempo. A religião tem uma influência importante, mas não há uma incidência direta sobre o voto do fiel”, afirma o professor. Segundo ele, a base evangélica no Brasil é, em geral, menos conservadora do que suas lideranças políticas. “O pastor, muitas vezes, é tanto uma liderança religiosa quanto política. Ele influencia em temas morais, mas isso não significa que define diretamente o voto do fiel”, acrescenta.

Flávio Munhoz Sofiati: “Desde o final dos anos 1980, com a Constituinte, o cristianismo pentecostal passou a disputar espaço na política” l Foto: Arquivo pessoal

Sofiati destaca que o envolvimento de igrejas na política é um fenômeno comum dentro do Estado Democrático de Direito. “Desde o final dos anos 1980, com a Constituinte, o cristianismo pentecostal passou a disputar espaço na política. Lideranças religiosas evangélicas e leigos se candidataram para defender seus interesses”, explica. No entanto, ele ressalta que há um limite importante: “O que não é normal é a imposição de dogmas religiosos para toda a sociedade”.

De acordo com o professor, a tentativa de transformar valores religiosos em legislação é um ponto de controvérsia. “Quando um parlamentar evangélico propõe leis baseadas em suas crenças religiosas, impondo regras à sociedade como um todo, isso é problemático. O Brasil tem uma forte presença evangélica, mas não é toda a sociedade que compartilha desses dogmas”, pontua.

Sobre a candidatura de líderes religiosos, Sofiati destaca que “a democracia permite que pastores e padres concorram a cargos públicos”. No entanto, ele observa que, no campo católico, o clero costuma se manter afastado das eleições, enquanto no meio evangélico a participação política é mais comum.

A influência das lideranças evangélicas, segundo Sofiati, é especialmente significativa nos debates sobre costumes. “Eles têm trabalhado uma agenda conservadora voltada para o controle dos corpos. São contra direitos reprodutivos das mulheres, contra a ampliação do conceito de família e, consequentemente, impactam os direitos da comunidade LGBTQIA+”, analisa.

O professor também aponta que a campanha política dentro das igrejas tem gerado divisão entre os fiéis. “Esse fenômeno tem afastado pessoas e levado parte dos fiéis a migrar para outras comunidades religiosas. A defesa explícita de candidatos, como ocorreu nas últimas eleições, gerou controvérsias dentro das próprias igrejas”, relata.

Por fim, Sofiati conclui que a influência dos líderes religiosos sobre o voto não é absoluta, mas sim um fator relevante dentro do contexto político atual. “A base evangélica é menos conservadora que suas lideranças, mas estas têm conseguido moldar o debate moral e influenciar a direção política da comunidade”, finaliza.

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