Carta de Juscelino Kubitschek para Jair Bolsonaro… com cópia para Ronaldo Caiado

Sr. Jair Bolsonaro,

Preclaro ex-presidente, sei que o sr. se entusiasma, muito mais, com os presidentes que governaram durante a ditadura civil-militar, a que durou de 1964 a 1985 — uma tenebrosa noite de 21 anos. No Céu, onde vivo desde 1976 — cinquenta anos em 2026 —, converso com frequência com Getúlio Vargas, João Goulart, Castello Branco e Ernesto Geisel.

Ouvi de Heitor Aquino Ferreira, secretário informal do general que formulou a Abertura, que o sr. não admira presidentes democratas, nem mesmo Ernesto Geisel. Seus ídolos, contou-me o amigo de Golbery do Couto e Silva, são o presidente Emilio Garrastazu Médici — o general da linha dura responsável pelo massacre dos guerrilheiros da esquerda — e o coronel Brilhante Ustra, o rei do DOI-Codi.

Ah, aprecia também o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que, apesar da vocação para ditador, permanece democrata, contido pelo Congresso e pela Suprema Corte. Ao contrário dos céticos, espécies de profetas do caos, acredito que a democracia da terra de Abraham Lincoln vencerá os arroubos autoritários do apadrinhado do empresário Elon Musk (se não sair do governo, a Tesla vai quebrar, sabem os economistas).

Emilio Médici e Jair Bolsonaro: identidade político-ideológica | Fotos: Reprodução e Divulgação

Um lugar “ruim” na história do Brasil

Há uma regra no Brasil e no mundo de se escrever assim “o presidente Getúlio Vargas”, “o presidente Franklin D. Roosevelt”. A norma vale para presidentes que morreram. Para os vivos, vale outra formalização: ex-presidente. Então, devo chamá-lo de ex-presidente, assim como faz a imprensa patropi.

O sr. governou o país por quatro anos e a justiça o sentenciou à inelegibilidade. Há a possibilidade de prisão. Ainda assim, o sr. movimenta as peças do jogo político, mas claro que sabe, mais do que todos os seus aliados, que não poderá ser candidato a presidente em 2026, daqui a um ano, cinco meses e alguns dias.

Sr. Messias, dito Jair, espécie de Furacão da política — o outro, “zinho”, era Furacão do futebol —, esqueci de me apresentar. Como Ivan Lessa dizia, no Brasil, de quinze em quinze anos, os brasileiros esquecem os últimos quinze anos. Por isso, traço minha breve biografia.

Sou médico, especializado na França (como Ronaldo Caiado), fui prefeito de Belo Horizonte, governador de Minas Gerais e presidente da República. Em 1965, se não fosse o putsch de 1964, eu teria sido eleito para um segundo mandato.

Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda: rivais e, depois de cassados pela ditadura civil-militar, aliados | Foto: Reprodução

Sou conhecido basicamente por dois motivos. Primeiro, construí Brasília, que muitos, notadamente os turistas, teimam em ver apenas como uma cidade-escultura. De certo modo, é. Oscar Niemeyer era de fato um arquiteto-escultor, um artista plástico.

Não esqueçamos que a beleza do traçado é de autoria de Lucio Costa, brasileiro nascido na França. A cidade da vista infinita é criação deste arquiteto.

Mas Brasília é mais do que uma cidade escultural, de belo horizonte. A cidade-meta diz respeito à minha ideia de que era precisa desenvolver o país de maneira global. Então, a nova capital, uma idosa com cara de bebê, representa, acima de tudo, minha tese de que era preciso descentralizar o desenvolvimento do Brasil.

O segundo motivo devo ao meu biógrafo Claudio Bojunga, autor do excelente livro “JK — O Artista do Impossível” (Objetiva, 800 páginas). Obra que, sem cabotinismo, recomendo ao sr. Mais do que a minha, é uma história do Brasil.

Claudio Bojunga escreveu que o meu foi um governo de exceção. Para que não pairem dúvidas, trata-se de exceção democrática. Apesar das pressões da direita, de antecessores do sr., como Carlos Lacerda — o que ajudou a gestar a ditadura e foi posto no limbo pelos generais —, governei em paz. Tanto que a arte floresceu na minha gestão. A Bossa Nova, de João Gilberto e Tom Jobim, nasceu e consolidou-se no meu período no poder.

Como sabe, morri em 1976, aos 73 anos. Como disse o cantor Adoniran Barbosa, eu ainda tinha muita brasa para queimar. O advogado Gustavo Bebianno Rocha, que mora na ala de Dante Alighieri Virgilio, o da “Eneida”, me contou que o sr. fez 70 anos, em março. Parabéns.

Meu caro Bolsonaro — tendo sido presidente, posso ter certa intimidade —, quero lhe falar uma coisa que não parece mas é importante: qual será o seu lugar na história do Brasil? Terá um espaço respeitoso ou vai se tornar um rodapé entre os malditos? Creio que, em parte, depende do sr.

No momento, a história está preparando um lugar ruim para o sr.: o de golpista, de antidemocrata. Há tempo para mudar o perfil? Não sei. Mas talvez, com a conduta presente e futura, seja possível nuançá-la.

Eis uma lista de ditadores que terminaram mal na história: Mussolini (linchado), Hitler (se suicidou e o cadáver foi levado para União Soviética), Stálin (morreu “urinado”, sem nenhuma assistência médica adequada), Mao Tsé-tung, Fidel Castro e Pol Pot. As estátuas de alguns deles foram derrubadas.

Sabe-se que o sr. ouve muito militares e advogados. Deveria ouvir ao menos um pouco historiadores, como os notáveis Carlos Fico, Daniel Aarão Reis, Heloisa Starling (extraordinária pesquisadora mineira) e Denise Rollemberg. Eles dirão, certamente, que a história, partir do que fez e anda fazendo, irá, de maneira metafórica, “crucificá-lo”.

Lembre-se: Emilio Garrastazu Médici é o presidente do Milagre Econômico. Sob sua batuta, a economia cresceu em níveis chineses. Mas sua imagem cristalizada é de um ditador brutal, cruento.

Lula da Silva e Tarcísio de Freitas: adversários cordiais | Foto: Divulgação

Tarcísio de Freitas e Ratinho Júnior

Mas, Jair — a intimidade só está crescendo, perdoe-me —, quero lhe falar também sobre a disputa presidencial de 2026, daqui a um ano, cinco meses e alguns dias. “Um pulinho”, assinala o general Sylvio Frota (que acaba de chegar ao Céu, depois de uma passagem longeva pelo Inferno e pelo Purgatório). Outro de seus líderes, não é?

Sylvio Frota teria ouvido de Braga Netto — o general que está preso por estrepolias golpistas — que o sr. é uma pessoa “desconfiada”. Na política, como sabe o tenente-coronel Mauro Cid, é difícil confiar de maneira ampla e irrestrita.

Entretanto, não se pode confiar apenas em parentes. Ministro de Tudo de Deus no Céu, Roberto Marinho me contou que leu, em “O Globo”, que o sr. desconfia até do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Capitão do Exército como o sr., o engenheiro Tarcísio de Freitas, de acordo com os bolsonaristas, teria trocado de padrinho político: Bolsonaro pelo eminência parda Gilberto “José de Paris” Kassab (Aldous Huxley gostaria de conhecê-lo).

De fato, há um problema. Gilberto Kassab articula bem, mas não tem votos como o sr. Messias, tu permanece popularíssimo e é um dos poucos políticos que transferem votos.

O sr. sabe que subestimei Jânio Quadros, avaliando que era apenas um uisquezofrênico? Portanto, não subestime o presidente Lula da Silva (PT). O petista-chefe é uma raposa, das mais felpudas, como se diz em Minas Gerais, lá na Serra da Canastra, notadamente em São Roque (o queijo de lá é supimpa).

Ratinho Júnior: governador do Paraná| Foto: Marcelo Andrade

Há quem acredite que Lula da Silva está eleitoralmente “morto”, dado o intenso desgaste de seu governo. Porém, se a gestão melhorar um pouco, com o poder de consumo (sobretudo da classe média) subindo, o petista de Garanhuns poderá se tornar, mais uma vez, altamente competitivo. No momento, ele opera para ampliar sua frente política, atraindo políticos de centro e, inclusive, de direita. Tudo a ver com 2026.

Sabe o Leonel? Pois é: Brizola, meu vizinho de quarteirão, aposta em Lula da Silva, que persiste chamando de Sapo Barbudo. João Goulart avalia que o petista é forte, mas admite que o bolsonarismo representa uma força considerável.

Talvez seja mais adequado o sr. aceitar que o melhor projeto para Tarciso de Freitas é a disputa da reeleição em São Paulo. É o que o militar reformado quer. Assim como Gilberto Kassab, que planeja ser vice.

Sem Tarcísio de Freitas, quem o sr. lançará para presidente da República? Meu companheiro de caminhada no Céu, Percy Geraldo Bolsonaro (por final, foi fichado pelo Dops), me contou que o sr. chegou a pensar em lançar o governador do Paraná, Ratinho Júnior, para presidente da República.

Millôr Fernandes, Henfil e Glauco ouviram a conversa sobre “um” Ratinho na Presidência e perguntaram para Percy Geraldo Bolsonaro: “É piada pronta?” E gargalharam. Por uma questão de decoro, mordi os lábios.

Michelle Bolsonaro | Foto: Reprodução
Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama: pose de Evita Perón | Foto: Reprodução

Michelle Bolsonaro e Ronaldo Caiado: opções

Um emissário que faz a ponte entre o Céu e o Inferno, Delfim Netto, me contou que ouviu de Brilhante Ustra, ancorado no Inferno, que o sr. planeja lançar Michelle Bolsonaro para presidente.

Juan Domingo Perón escutou e disse: “Seu Antônio” (é assim que Delfim Netto é conhecido no Céu), “o sr. Jair Messias Bolsonaro quer criar uma Evita Perón no Brasil?”.
Dando uma de Ariano “Chicó” Suassuna, Delfim Netto acrescentou: “Só sei que é assim”. Maria Eva Duarte Perón, que ainda conversa com dom Juan, sussurrou: “Evita-me, Perón”.

Jorge Luis Borges, que voltava de uma visita a Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade, disse: “Deus nos livre de uma nova Perón”. Oliverio Girondo e Bioy Casares me contaram que, certa feita, peronistas cercaram o escritor e disseram: “Morra, Borges!” O bardo redarguiu, sussurrando: “Bem que quero morrer, mas sou imortal”. Adolpho Bloch relata que o “diálogo” é verdadeiro.

Bolsonaro, como se sabe, para construir Brasília, precisei do apoio de muita gente. Políticos, empresários e jornalistas do Rio de Janeiro e de São Paulo me atacaram e criticaram de maneira excessiva. As redes deles eram jornais e emissoras de rádio e televisão. Nada diferente das redes sociais — com ou sem fake news — que apoiam o sr.

Sabe um político que apoiou a construção de Brasileira de maneira decisiva, sem recuar? Trata-se de Emival Caiado, parente do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, líder do União Brasil.

Numa conversa com Iris Rezende e Maguito Vilela, fiquei sabendo que Ronaldo Caiado faz um governo eficiente e decente em Goiás. Deu jeito na segurança. Melhorou a educação. Criou um estado do bem-estar social.

Ronaldo Caiado, governador de Goiás: uma alternativa realista | Foto: Divulgação

Então, no lugar de apoiar a própria mulher, tão-somente para governar no lugar dela — o machismo brasileiro é proverbial —, por que não apoiar um indivíduo que, além de político profissional (no sentido do exposto pelo sociólogo alemão Max Weber), é um gestor experimentado?

Se o sr. quer retomar o poder para a direita, ou para a centro-direita, talvez o caminho adequado seja apoiar um político que, não sendo visto como extremista, tem como obter apoios em vários nichos eleitorais. O extremismo, que espanta e não agrega, o derrotou em 2022.

Sr. Bolsonaro, ao contrário de vários de seus críticos, eu o considero um político maduro e astuto. Dê uma prova de que estou certo apoiando um político moderno e civilizado. Democracia é respeitar — não necessariamente compor com — as diferenças. O sr. é diferente de Ronaldo Caiado, mas há parentesco político também. Ah, o Carvalho Pinto acrescenta que Tarcísio de Freitas é um gestor igualmente eficiente. Eugênio Gudin balança a cabeça, assentindo. Mario Henrique Simonsen fica calado, ao lado de Roberto Campos (porta-voz de São Pedro no Céu).

Um abraço do Juscelino Kubitschek de Oliveira, do Céu

(A carta, evidentemente, é imaginária. Juscelino Kubitschek morreu há quase 50 anos. A missiva, ainda que seja fictícia, é realista.)

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