Contistas escrevem sobre a própria morte. Conto 3 — De Ana Cristina Fernandes

Morreu de nada e viveu de tudo

Ana Cristina Fernandes

Especial para o Jornal Opção

A pergunta que todos faziam no velório era: mas como ela morreu, morreu de quê? Ela estava tão bem de saúde, não aconteceu nenhum acidente, nada? Escorregou, caiu? Tomou algum remédio…tinha alguma alergia? Fez alguma cirurgia?

O filho respondeu, com o seu jeito resiliente e fleumático: nada, aparentemente. O “nada” foi uma parada cardíaca repentina. Não deu muitos detalhes em respeito à memória dela. Inúmeras vezes ela repetia: odeio gente curiosa em velório. A maioria vai para fofocar ou vai por obrigação e alguns nem se simpatizavam realmente com o morto. Então, não vem ao caso ficar repetindo sem parar o “como morreu” mas, por educação, a gente responde de forma breve.

Ela sempre pensou: “uma vida bem vivida merece uma morte bem morrida”. Sim, porque vamos combinar, existem tantas mortes bestas! Fulano morreu engasgado com mexerica, pão de queijo ou um pedaço de carne. Ciclano escorregou e bateu a cabeça. Causa mortis: queda da própria altura. Tem morte mais besta?

Sabemos que a morte precisa apenas de uma oportunidade. Até uma feridinha na pele pode culminar em uma temível sepse. Sim, oportunista a Dona Morte. Mas não adianta tentar uma negociação. Quando chega a hora, não há o que fazer e todo o seu conhecimento técnico, dinheiro ou tecnologia não irão salvá-lo. A ideia é viver da melhor forma possível, sem ficar obcecado sobre como você será contemplado. Aliás, desconfio que essa obsessão pode até antecipá-la. O que a Dona Morte tem pra cada um é surpresa: nem sempre há uma lógica entre como se vive e como se morre.

Embora ela fosse um pouquinho hipocondríaca e adorasse pesquisar artigos sobre saúde, nutrição, não tinha lá muito rigor com nada. “Formou-se” em medicina pelo Youtube, fazia exercícios quase que diariamente desde a adolescência e entre uma e outra extravagância alimentar semanal, tinha hábitos bem saudáveis. Aos 70 e poucos anos era completamente lúcida e havia vivido bem intensamente – em todos os sentidos.

Considerando o quanto gostava de viajar, era bem possível morrer em alguma de suas aventuras. Oportunidades trágicas nunca lhe faltaram, como pegar um Uber a 01 da madrugada sozinha, em Santiago. Fazer trilhas quando dava na telha, ainda que incluíssem uma semi-escalada sozinha, em época de trombas d´água ou na época da seca. Viajar para a praia sozinha e saracotear em locais aparentemente ermos. Mas tudo com segurança, óbvio que pesquisava antes – ela refutava. Assaltos, quedas, afogamentos, picadas peçonhentas, acidentes aéreos. Ironicamente nada disso nunca lhe aconteceu. Nem um “furtinho” qualquer nos metrôs internacionais. Vacinada contra os pick-pockets que era. E para começo de conversa, ela gostaria de ser cremada. Então, se morresse queimada num acidente aéreo qualquer, a parte boa é que pouparia seus familiares dos custos crematórios. Mais higiênico, mais sustentável – um viva aos costumes orientais que são bem mais pragmáticos também neste aspecto.

Pintura de Salvador Dalí (mulheres formando uma caveira)

Como ela sempre dizia: tudo é um risco, existir já é arriscado. Óvulo fecundado, risco detectado. Você já pode morrer a partir desse momento. A morte não chega adiantada, nem atrasada. Quem tem que morrer, morre até dormindo. Então, melhor viver correndo seus riscos do que se deitar e esperar a morte, sem nada ter feito. Anos antes, ela escreveu um poema que vinha bem a calhar naquela situação. Um amigo escritor lembrou-se disso e, divertidamente o leu em voz alta no velório:

Ocaso fúnebre

Que não procurem saber de meu velório

Aqueles que não perceberam as incontáveis mortes e renascimentos

Que ainda em vida passei

Meu cadáver dispensa os dissimulados pesares de meras convenções

Formalidades sociais

Hipocrisias pontuais

Quem comigo não compartilhou

Calorosa e sinceramente

Lágrimas ou risos

Estará proibido em saciar-se secretamente, ou publicamente

Sua vã curiosidade

Em analisar friamente, meu frio e imóvel cadáver

Uma de suas músicas preferidas da Rita Lee dizia: “Se por acaso morrer do coração, é sinal que amei demais. Pois enquanto estou viva e cheia de graça, talvez ainda faça um monte de gente feliz”. Moral da história? Apenas viva. E não é que parece que ela adivinhou? Amou demais, viveu demais. Mas foi feliz e fez muita gente feliz. Coração trabalhou até não poder mais. Morreu dormindo a danada.

Ana Cristina Fernandes é escritora.

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