Sterne, em “Tristram Shandy”, rejeita a linearidade e antecipa técnicas narrativas modernas

Carlos Willian Leite

Especial para o Jornal Opção

Nono livro lido em 2025: “A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy” (Penguin-Companhia, 768 páginas), tradução de José Paulo Paes.

Li o escritor irlandês Laurence Sterne (1713-1768 — viveu apenas 54 anos) pela primeira vez em 2006, em uma edição da Nova Fronteira, com tradução notável do poeta José Paulo Paes. Sempre quis reler, mas fui adiando até encontrar a nova edição na Feira do Livro de Lisboa.

Publicado entre 1759 e 1767, “Tristram Shandy” é um dos romances mais excêntricos da literatura ocidental. Sterne rompe com qualquer expectativa tradicional de narrativa, criando um exercício literário de ironia e experimentação (o que aparece mimetizado em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis). Em vez de uma trama linear, conduz o leitor por um labirinto de reflexões, anedotas e comentários metalinguísticos.

A maior qualidade do livro é também o que pode frustrar alguns leitores. O protagonista, encarregado de contar sua história, nunca avança de forma convencional. Obcecado por detalhes irrelevantes, interrompe-se constantemente, transformando a narrativa numa paródia radical do ato de contar histórias. Influenciado pelo Iluminismo e pela tradição cômica britânica, Sterne rejeita a linearidade e adota um estilo caótico, que antecipa técnicas narrativas modernas.

Laurence Sterne: escritor irlandês que influenciou a narrativa moderna | Foto: Reprodução

O livro também reflete sobre identidade e memória. Tristram percebe que seu relato jamais capturará a totalidade da experiência. O tempo da escrita se descola do tempo da vida, e a linguagem, longe de ser um meio de comunicação fiel, revela-se um obstáculo.

Sem uma trama clara e com um ritmo errático, a leitura exige paciência e disposição para embarcar no jogo de palavras e digressões. O humor, por vezes excessivamente autorreferencial, pode afastar alguns, mas a originalidade do livro segue inegável. Mais de dois séculos depois, “Tristram Shandy” não perdeu sua força: continua um desafio, uma provocação e, acima de tudo, um feito literário único.

Nota: 10

Carlos Willian Leite, poeta, jornalistas e editor da “Revista Bula”, é colaborador do Jornal Opção.

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