Desinformação sobre autismo cresceu 150 vezes no Telegram, aponta estudo

Neste 2 de abril, Dia Mundial de Conscientização do Autismo, uma pesquisa revelou um dado alarmante: a desinformação sobre esse tipo de transtorno teve um salto vertiginoso de 15.000% (mais de 150 vezes) nos últimos cinco anos, em comunidades do Telegram da América Latina e Caribe, envolvendo mais de 5 milhões de usuários. E esse lamentável ranking é liderado pelo Brasil.

Os dados fazem parte de um levantamento inédito feito pelo Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em parceria com a Associação Nacional para Inclusão das Pessoas Autistas (Autistas Brasil).

O estudo ainda revela um aumento mais rápido nesse tipo de conteúdo, de 635%, nos dois principais anos da pandemia de Covid-19 (2020 e 2021). “Esse crescimento acelerado demonstra como a crise sanitária abriu espaço para narrativas conspiratórias que continuaram se expandindo nos anos seguintes”, diz a publicação (acesse a íntegra no final do texto).

Ergon Cugler. Foto: reprodução/Instagram

Ao mesmo tempo, o pesquisador Ergon Cugler — autista e um dos responsáveis pelo estudo, ao lado de Arthur Ataide Ferreira Garcia, Guilherme de Almeida e Julie Ricard — avalia que esse quadro se relaciona ao crescimento da extrema-direita e de sua visão anti-científica e obtusa de mundo.

“O aumento da desinformação sobre autismo não é um fenômeno isolado: ele está diretamente conectado à ascensão de movimentos extremistas e individualistas, como os de extrema-direita, que cultivam desconfiança nas instituições, rejeitam o conhecimento científico e promovem visões moralistas e capacitistas sobre a diferença”, aponta.

Para chegar a essas conclusões, o estudo analisou mais de 60 milhões de mensagens em grupos conspiratórios do Telegram, envolvendo mais de 5 milhões de usuários de 19 países. Foram mapeadas 150 falsas causas e 150 falsas curas do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em postagens abertas ao público.

O Brasil lidera tanto em número de conteúdos quanto em volume de usuários atingidos. Segundo o estudo, comunidades brasileiras foram responsáveis por 48% das publicações sobre autismo no continente, com mais de 10,5 mil conteúdos que atingiram até 1,7 milhão de usuários, resultando em quase 14 milhões de visualizações.

Causas e curas mentirosas

Pode parecer brincadeira de mau gosto, mas não é. Entre os achados da pesquisa, estão explicações absurdas sobre as “possíveis causas” para o autismo, que vão desde o “consumo de Doritos” e a influência do Wi-Fi e do 5G até efeitos colaterais de vacinas e “a inversão do campo magnético da Terra”.

Entre as falsas curas mapeadas estão práticas que podem ser prejudiciais à saúde, tais com o uso de dióxido de cloro (CDS) — conhecido como “MMS”, uma substância tóxica — e de ozonioterapia e a ingestão de azul de metileno.

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Para além de insólitas, essas falsas informações acabam por ampliar mitos e preconceitos contra as pessoas que têm TEA. E, considerando os números levantados pelo estudo — que analisou apenas um tipo de canal de veiculação —, o grau de propagação desse tipo de mentira é assustadoramente perigoso e desumano.

De acordo com os pesquisadores, as consequências da propagação desse tipo de conteúdo falacioso vão muito além do universo digital. “Ao disseminar essas visões patologizantes e prometer curas irreais, essas comunidades podem afetar decisões de familiares, políticas públicas e percepções sociais sobre o autismo. Além disso, a presença de influenciadores autodenominados ‘especialistas’ e inclusive ‘coachings do autismo’ fomenta estigmas e a marginalização de pessoas neurodivergentes”.

Vale destacar que segundo a Organização Mundial de Saúde, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um distúrbio do neurodesenvolvimento que se manifesta “em uma série de condições caracterizadas por algum grau de comprometimento no comportamento social, na comunicação e na linguagem e, muitas vezes, por uma gama estreita de interesses e atividades que são únicas para o indivíduo e realizadas de forma repetitiva”.  

A OMS também salienta que por não ser uma doença, o autismo não tem cura e o que as pessoas com TEA precisam é de acompanhamento específico e individualizado de diferentes profissionais para garantir seu desenvolvimento e bem-estar.

Mercantilização do sofrimento humano

Ergon Cugler vai além e argumenta que no centro desse processo, existe um projeto de mercantilização do sofrimento humano. “Dentro da lógica neoliberal do ‘vale tudo pelo lucro’, corpos autistas se tornam alvos de um mercado paralelo de falsas promessas. São oferecidas curas milagrosas, terapias sem embasamento e produtos tóxicos como soluções para um suposto ‘problema’ a ser eliminado. Isso não é apenas desinformação, é uma forma de exploração”.

Ele salienta que em meio a esse processo cruel, “as pessoas autistas deixam de ser vistas como sujeitos de direitos e passam a ser tratadas como objetos a serem ‘consertados’ ou ‘corrigidos’ por qualquer meio, desde que gere lucro para alguém”.

Cugler acrescenta que famílias em situação de vulnerabilidade emocional “são capturadas por mantras de gurus digitais, que vendem esperança embalada em pseudociência. Esse sequestro emocional opera dentro de bolhas conspiratórias onde a extrema-direita avança: discursos anticiência, desconfiança das instituições públicas e soluções ‘alternativas’ promovidas por influenciadores sem qualquer compromisso com a verdade. O resultado é a corrosão do cuidado, da empatia e da construção coletiva de políticas públicas baseadas em evidências”.

Para fazer frente a esse processo, o estudo defende a adoção de uma abordagem sistemática, “que combine o acompanhamento das redes, regulação das plataformas digitais, intervenção ética, e alfabetização midiática crítica, capaz de empoderar famílias com informação íntegra e qualificada e combater a monetização da mentira”.

Por fim, salienta que “enfrentar esse ecossistema malicioso e lucrativo de forma coordenada é não apenas uma ação de saúde pública, mas também de justiça social”.

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