“Não é para fins estéticos”: especialistas comentam uso do Ozempic após boom midiático

“Eu senti bastante enjoo”, “ficava bem mais deprimida, bem mais apática”, “pouca energia para trabalhar” e “pouca disposição para fazer qualquer tipo de coisa”. Essas são falas de Anna Carolina Mendes, analista de Recursos Humanos, que revelou ao Jornal Opção parte dos efeitos colaterais que experimentou durante os dois períodos em que realizou a aplicação do Ozempic para emagrecimento. 

Ela, que também é psicóloga, realizou a primeira aplicação há cerca de dois anos atrás, foram aplicações semanais durante seis meses. Após descobrir uma desregulação na tireoide, suspendeu o tratamento por quase um ano, enquanto tratava a disfunção hormonal recém-descoberta. A segunda aplicação durou menos, apenas três meses, mas, em ambos os casos, o objetivo de Anna foi alcançado. “Nas duas vezes eu fiquei bem satisfeita”, afirmou ao compartilhar a perda de oito kg na primeira aplicação e de seis kg na segunda. 

A repetição da aplicação se motivou pelo reganho parcial de peso, devido à questão da tireoide. Uma terceira aplicação, entretanto, não faz parte de seus planos. Para além da questão do preço, “a falta de energia me pegou um pouco”. Como a analista de RH manteve acompanhamento profissional de sua dieta e de sua rotina de exercícios, ela conseguiu manter o peso conquistado após a segunda aplicação e, agora, o Ozempic não se mostra mais tão atraente quanto antes. 

 “Eu estava com o colesterol mais alto e melhorou bastante”, Anna afirma que, com o devido acompanhamento, seus exames apresentaram melhora l Foto: Arquivo pessoal.

“Eu gosto de academia, eu gosto de exercício e eu sinto que essa é a forma saudável de eu continuar perdendo peso”, pontuou. Por fim, ela concluiu: “eu experimentaria outros [remédios para auxiliar no emagrecimento], mas eu acho que o Ozempic novamente não”. 

Para aqueles que pensam no medicamento como uma opção para emagrecimento, Anna alerta: “Se você tem transtornos de ansiedade ou de depressão, por exemplo, faça [as aplicações] também com o acompanhamento psicológico”. Apesar de não ter efeitos cientificamente comprovados sobre a saúde mental, a diminuição da energia e a mudança na rotina de alimentação pode ter efeitos diferentes a depender do paciente. 

A medicação já está sendo estudada há mais de dez anos para combate da diabetes tipo dois, por exemplo. Posteriormente, o uso para emagrecimento (em casos de obesidade ou de sobrepeso que traz comorbidades ligadas à doença) foi aprovado tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, por exemplo. Desde a pandemia da Covid-19, entretanto, um boom midiático puxado pelo processo de emagrecimento relâmpago de algumas celebridades trouxe um uso estético da medicação. Essa finalidade, entretanto, levantou debates na comunidade médica.

Perspectiva profissional

Marília Zanier, médica endocrinologista e presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia em Goiás (SBEM), explica que o Ozempic “ é uma medicação injetável que tem como princípio ativo a semaglutida, e essa semaglutida nada mais é do que um análogo do hormônio que se chama GLP-1”. Conforme explica a profissional, o GLP-1 é um hormônio produzido no intestino após a ingestão de alimentos que, entre vários outros mecanismos, traz a diminuição da fome, o aumento da sensação de saciedade e uma desaceleração do processo digestivo. 

O medicamento foi inicialmente pensado para tratar diabetes tipo 2, na dosagem de um miligrama, entretanto, “posteriormente, ele também foi aprovado para obesidade, e isso está em bula”. Para tratamento da obesidade ou do sobrepeso (que favorece condições ligadas à comorbidade como diabetes e hipertensão) a dosagem é maior, com máximo de 2,4 miligramas.  

“Quando a gente fala em tratamento de peso, a gente está falando em tratamento de obesidade, que é uma doença”, reforça a especialista, que garante não haver uso científico comprovado e aprovado da medicação para fins estéticos.

O uso indiscriminado e não acompanhado de um médico pode gerar complicações. Pacientes com cálculo na vesícula, retinoplastia grave, com histórico de pancreatite ou com refluxo grave enfrentam efeitos colaterais severos, o que justifica a contraindicação do uso do Ozempic. 

 “Remédio não deveria nem ter blogueira divulgando porque se trata de um tratamento médico”, Marília comenta o boom midiático do Ozempic l Foto: Arquivo pessoal. 

Mesmo os pacientes que não possuem nenhuma dessas condições, necessitam do acompanhamento médico para controle dos efeitos colaterais já esperados. Enjoo, prisão de ventre e diarreia são alguns efeitos já esperados e que podem ser amenizados com outras medicações prescritas pelo profissional que acompanha o tratamento. O tratamento “não deve ser iniciado sem prescrição ou indicação médica, jamais”, reforça Marília.

O bom uso do Ozempic para o emagrecimento se baseia em um tripé: medicação-alimentação-rotina de exercício físico. “A gente não quer que esse paciente perca músculo”, pontuou a endocrinologista. Dessa forma, após certo tempo com dieta balanceada e exercícios físicos frequentes, o uso da medicação pode ser diminuído ou até retirada. A obesidade, entretanto, é uma condição crônica, lembra Marília, portanto, mesmo que a medicação tenha sido retirada, o acompanhamento médico ainda se faz necessário a fim de se certificar de que a rotina de exercícios e alimentação ainda basta para manter a condição física do paciente. 

“Se a gente vê que, de repente, os hábitos inadequados voltaram, que o paciente voltou a aumentar o apetite, alguma coisa, a medicação deve ser retomada”, resumiu. 

Por fim, a especialista comenta sobre a popularização do uso do Ozempic para emagrecimento, mesmo em casos não ligados à obesidade enquanto doença. “Hoje a gente vive, infelizmente, essa questão de uso generalizado de várias medicações, especialmente que atuam em peso e humor em que os pacientes se automedicam”, resumiu. Pacientes com uso indevido desenvolvem diversas questões danosas à saúde, portanto a exigência de receita médica se faz essencial em tratamentos dessa natureza. 

“A sociedade brasileira de endocrinologia levou até a Anvisa a necessidade de que se coloque como obrigatória a receita médica para a compra dessas medicações”, compartilhou. O uso indiscriminado, potencializado pela atenção midiática dada ao medicamento, não só prejudica os usuários do remédio para fins estéticos, como aqueles que de fato precisam do item para tratamentos. “Quando nós tínhamos só o Ozempic [para emagrecimento] tivemos falta significativa para os nossos pacientes diabéticos”, exemplificou.

Não é para fins estéticos

A endocrinologista Ana Luiza Silva Rio, por sua vez, é categórica ao afirmar que o Ozempic “não é uma medicação para pacientes que querem perder um, dois ou três quilos. Não é para fins estéticos”. Para a médica, quando a medicação é usada para perda de peso, ela deve se concentrar nos pacientes que de fato travam uma luta contra a obesidade, enquanto uma doença crônica. O uso para fins estéticos, além de trazerem riscos à saúde, gera “desabastecimento da medicação” para quem de fato precisa. 

“Aqueles pacientes que teriam benefício real de proteção do coração, perda de peso, tratamento de diabetes, às vezes enfrentam falta da medicação no mercado devido a esse uso indiscriminado da medicação”, explicou. 

A especialista diz que “no passado, nós não tínhamos medicações [para combate à obesidade] que fossem seguras para o uso contínuo”, e, além disso, havia discriminação, como se a condição se devesse a um desvio de caráter do paciente e não a uma doença. “O paciente que tem obesidade tem que se conscientizar que a obesidade é uma doença”, pontuou ao reforçar a importância de uma atenção continuada à condição. 

“Aqueles pacientes que teriam benefício real, às vezes enfrentam falta da medicação no mercado”, explicou l Foto: Arquivo pessoal.

Hoje em dia, existe uma gama de medicações destinadas a esse fim, com diferentes formas de atuação. Algumas atuam na redução de absorção de gordura pelo organismo, enquanto outros, como o Ozempic, trabalham na sensação de saciedade, diminuindo o consumo de alimentos. De toda forma, o desenvolvimento da tecnologia farmacêutica proporciona a possibilidade de tratar a obesidade, de fato, como uma doença crônica. 

Pensando na experiência de Anna, especificamente relacionada à saúde mental durante a aplicação, a endocrinologista afirma que os experimentos realizados nesse sentido “não conseguem comprovar que tem alguma ligação [entre o Ozempic e efeitos na saúde mental]”. A restrição alimentar, entretanto, “pode ser uma das causas, então, da piora do humor” em pessoas com quadro depressivo.

De toda forma, Ana Luíza coloca o diálogo com o paciente como essencial não apenas para lidar com possíveis efeitos colaterais advindos da medicação e da mudança na rotina dos pacientes, mas também para definir a dosagem ao longo do tratamento. 

Boom midiático

O endocrinologista Sérgio Vêncio disse ao Jornal Opção que “o que acontece hoje é que muita gente compra sem receita, o que é um absurdo”. Ele conta que, por mais que os testes feitos com a medicação mostrem resultados positivos para além do controle da diabetes e da perda de peso, seu uso precisa ser acompanhado por um profissional. O uso do Ozempic em pessoas que não têm diabetes “não só é seguro, como os estudos clínicos mostram uma diminuição de mortalidade cardiovascular”, exemplificou. 

O boom midiático que a medicação viveu nos últimos anos, entretanto, faz com que “muita gente compre sem receita, o que é um absurdo”. Para ele, “esse efeito Ozempic é um retrato de uma sociedade que busca soluções fáceis e infelizmente está à mercê de profissionais mal preparados que não tem informação nenhuma e acabam indicando o remédio de forma inadequada”.

“O paciente que tem obesidade tem que se conscientizar que a obesidade é uma doença”, afirmou l Foto: Leoiran / Jornal Opção.

Assim como Marília, Sérgio reforça a importância do tripé medicação-exercício-dieta. “Qualquer remédio para perder peso é um coadjuvante”, explicou. O uso isolado do Ozempic não apresentará efeito nenhum para emagrecimento duradouro, e a dosagem errada pode trazer consequências para a saúde do usuário. “A obesidade é um problema, a gente tem que tratar, tem remédio para isso, tudo isso é maravilhoso, mas isso tem que ser feito com responsabilidade pelo profissional adequado”, resumiu.

Em alguns casos, inclusive, o especialista defende um uso continuado da medicação, de forma parecida com os tratamentos para controle de hipertensão. Claro, em alguns casos, com a adaptação a uma nova rotina de alimentação e exercícios, o peso se mantém sem o remédio, mas “se ele volta para o mesmo local onde ele [paciente] estava, não vai dar certo”. Portanto, o médico conclui dizendo que “o processo de emagrecimento tem que ser lento, é um tratamento continuado, é um tratamento que precisa de mudança de hábito, não há fórmula mágica”. 

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