Especialista aponta fatores para aumento da abstenção nas eleições

O aumento da abstenção nas eleições tem se tornado um fenômeno cada vez mais evidente no Brasil. Entre 2018 e 2022, o número de eleitores que deixaram de comparecer às urnas cresceu significativamente. Para o professor e consultor de marketing político Marcos Marinho, vários fatores podem estar contribuindo para esse cenário.

“A crescente dos extremismos e essa polarização exacerbada cansaram bastante o eleitor. Ficou uma briga tão polarizada de um contra um, que o cidadão comum não tem interesse nisso e acha que isso não vai resolver o problema dele”, avalia Marinho.

Além disso, ele aponta o descrédito na classe política como um fator determinante. “O cidadão está cada vez mais apartado do processo político, das figuras políticas e das casas de leis. Os próprios políticos não têm mais a preocupação de se aproximar do eleitorado”, destaca.

Outro ponto levantado pelo especialista é a concorrência de atenção com outros tipos de conteúdo. “Hoje, as pessoas têm uma grande variedade de conteúdo para consumir e acabam se afastando do debate político. Como elas não se informam, não enxergam a importância do voto e preferem nem perder tempo indo às urnas”, explica.

Consultor de marketing político Marcos Marinho | Foto: Divulgação

Como reverter esse cenário?

Dados indicam que, somando os votos brancos, nulos e as abstenções, mais de 30% do eleitorado está deixando de participar do processo eleitoral. Para Marinho, os políticos precisam investir mais em mobilização e engajamento.

“Uma coisa que sempre orientamos nossos clientes é que não se mobiliza e engaja apenas com conteúdo nas redes sociais. É necessário um trabalho de proximidade, de criar canais de interação, de entender as dores do eleitor e manter um relacionamento constante”, afirma.

Ele alerta que, sem esse tipo de estratégia, é difícil converter a população desmotivada em eleitores ativos. “Se um grupo social não está próximo ao político, ele pode simplesmente migrar para outro candidato ou cair na vala da abstenção”, completa.

Jovens e solteiros entre os mais ausentes

Os jovens entre 25 e 29 anos são o grupo que menos tem comparecido às urnas. Para Marinho, isso ocorre porque essa faixa etária está especialmente decepcionada. “É um grupo que saiu da juventude cheio de aspirações, mas encontra poucas perspectivas. Eles não enxergam políticas públicas que os beneficiem e acabam se desmotivando”, analisa.

Outro fator importante é o aumento do número de eleitores solteiros. “O mercado já entendeu essa nova dinâmica social e se adapta oferecendo produtos e serviços. Mas a política ainda não aprendeu a dialogar com esse público. Se o eleitor não se sente representado, ele se afasta do processo”, afirma.

Abstenção maior entre os menos escolarizados

Dados mostram que os eleitores com ensino fundamental incompleto são os que mais deixam de votar. Esse grupo pertence às camadas mais pobres da população, e Marinho aponta vários possíveis motivos para isso.

“Essas pessoas podem não estar sendo alcançadas pela comunicação política. Além disso, muitos enfrentam dificuldades financeiras que tornam o acesso às urnas mais complicado. Por exemplo, pode ser que um eleitor em situação de vulnerabilidade não queira gastar dinheiro com passagem para votar”, exemplifica.

Para ele, é essencial que haja uma reestruturação da percepção política da sociedade. “Se as pessoas não perceberem que o único caminho para melhorar a sociedade é através da política, elas vão continuar se afastando dela. E a tendência é que a abstenção continue crescendo nas próximas eleições”, conclui Marinho.

Dados do TSE

Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que eleitores com ensino fundamental incompleto são os que mais deixam de votar, apesar de formarem o maior grupo entre os que comparecem às urnas. Em seguida, estão aqueles com ensino médio completo e incompleto.

Além disso, mais de 30% dos eleitores brasileiros não escolheram nem Jair Bolsonaro nem o Partido dos Trabalhadores (PT) nas eleições de 2018 e 2022, considerando votos brancos, nulos e abstenções, o que aponta para um eleitorado ainda a ser conquistado pelos candidatos.

Fatores como estado civil e gênero também influenciam a participação eleitoral. Eleitores solteiros são os que mais se abstêm, seguidos pelos casados. Em relação ao gênero, os homens lideram a taxa de abstenção. Já entre as faixas etárias, jovens de 25 a 29 anos são os que mais deixam de votar, demonstrando um padrão de participação desigual entre diferentes perfis do eleitorado.

A comparação entre as eleições de 2018 e 2022 revela um aumento na abstenção. Em 2018, dos 146,8 milhões de eleitores aptos, 115,7 milhões compareceram às urnas, resultando em uma taxa de participação de 78,84%. Já em 2022, o número de eleitores cresceu para 155,7 milhões, e 123,9 milhões votaram, elevando a taxa de comparecimento para 79,58%.

Entretanto, apesar desse aumento numérico, a diferença percentual nas abstenções foi de 2,35%, mostrando uma leve tendência de crescimento na ausência dos eleitores, fator que pode impactar as próximas eleições.

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