Sanders e Ocasio-Cortez reúnem multidões e desafiam governo Trump

O segundo governo de Donald Trump não representa apenas a repetição de sua primeira gestão. Trata-se de uma nova fase — mais autoritária, mais alinhada ao capital financeiro e às big techs, mais comprometida com o desmonte do Estado. A presença de Elon Musk como figura central da nova arquitetura de poder norte-americana é sintomática.

Nesse cenário, surpreende (ou talvez não) o fato de que a oposição institucional — liderada pelo Partido Democrata — siga paralisada, conciliadora, incapaz de enfrentar a ofensiva reacionária. Com aprovação em baixa histórica e sem um projeto claro, o partido abriu espaço para que figuras como Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez reocupassem o campo da crítica antissistêmica.

Com a turnê Fighting Oligarchy (“Lutando contra a Oligarquia”), os dois parlamentares atraíram dezenas de milhares de pessoas em estados-chave, como Colorado, Arizona, Iowa e Wisconsin — justamente onde a extrema direita consolidou vitórias apertadas.

As pautas centrais da turnê não são novas. Medicare para todos, ensino superior gratuito, moradia popular e justiça fiscal figuram entre as propostas apresentadas por Sanders desde suas campanhas de 2016 e 2020. Mas o momento é outro. Diante da inércia democrata, tais bandeiras voltam a representar o único horizonte minimamente concreto para a reconstrução do pacto social nos EUA.

A atmosfera nos comícios deixa isso evidente. Entrevistada pela New Yorker, a trabalhadora Nikki Montaño Brown resume o sentimento coletivo: “Sempre foi uma luta, mas essa é a maior da minha vida. Ninguém está nos ajudando.” É um diagnóstico direto, devastador — que os “profissionais do centro político” fingem não escutar.

O contraste entre a multidão progressista e o silêncio moderado ficou ainda mais nítido após a aprovação do orçamento de Trump com apoio de Chuck Schumer, senador democratas por Nova York. Enquanto isso, outros líderes democratas como Ro Khanna e Tim Walz tentam, tardiamente, retomar contato com distritos conservadores. Mas há dúvida se essas ações são convicção ou cálculo eleitoral.

A raiva popular, no entanto, não pode ser confundida com irracionalismo. Ela carrega direção. “O desprezo de Trump e dos republicanos pela classe trabalhadora não vem só de má criação. É o resumo de uma agenda para enganar e explorar os trabalhadores”, afirmou Ocasio-Cortez no Arizona. E Sanders foi além: “O governo foi capturado por uma casta de bilionários. Eles não sabem mais o que fazer com tanto dinheiro. Compram mansões, jatinhos, ilhas… e vão ao espaço.”

As declarações ganham força diante da ausência de alternativas reais no establishment. Em vez de oposição firme, o que se vê é passividade institucional e esvaziamento programático. “Eles precisam melhorar a comunicação, tirar a velha guarda e deixar a ala progressista representar o povo”, disse Brendan Crowley, trabalhador técnico presente no comício de Tucson.

A insatisfação extrapola o campo da esquerda tradicional. Envolve independentes, veteranos, setores indígenas, trabalhadoras do comércio, profissionais precarizados. As multidões se reúnem não apenas por afinidade ideológica, mas por necessidade material. “É a maior luta da minha vida”, repete Brown. “E ninguém está nos ajudando.”

Apesar da força simbólica dos comícios, analistas apontam que o sucesso da mobilização dependerá da capacidade de organização coletiva. O articulista Eric Blanc, em artigo no The Guardian, afirma que os comícios precisam se converter em ações sustentadas, com a base sendo chamada a organizar vizinhos, colegas e familiares. Ele defende que Sanders e Ocasio-Cortez peçam explicitamente que o público atue como mobilizador.

Nesse sentido, os atos vêm sendo usados para impulsionar o dia nacional de ação “Hands Off!”, marcado para 5 de abril por organizações como MoveOn, Indivisible e Working Families Party. O objetivo é defender serviços públicos ameaçados por Trump e Musk, como a Seguridade Social, os Parques Nacionais e o Departamento de Assuntos dos Veteranos.

Greg Casar, deputado do Texas e presidente do Caucus Progressista na Câmara, afirmou que a oposição interna ao trumpismo não deve se resumir a cálculos eleitorais. Para ele, a clivagem no Partido Democrata hoje não é entre esquerda e centro, mas entre quem luta e quem se rende. Os primeiros saem às ruas. Os segundos assinam orçamentos golpistas.

Há algo novo no ar? É cedo para afirmar com segurança. Mas é possível afirmar, com base no que foi visto nos campos de Tucson e Denver, que há novamente oposição real à oligarquia e ao autoritarismo nos Estados Unidos.

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