Milei defende megaendividamento com FMI e divide Argentina

O presidente argentino, Javier Milei, anunciou nesta quinta-feira (27) um acordo de US$ 20 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI), mas a instituição nega o valor e os termos propostos. Em discurso na Conferência de Regulação de Seguros, Milei afirmou que os recursos “não aumentarão a dívida”, pois serão usados para recapitalizar o Banco Central e fortalecer o lastro da moeda local. No entanto, críticos destacam que o empréstimo, combinado com pacotes do Banco Mundial e do BID, elevará as reservas brutas para US$ 50 bilhões — dinheiro que, segundo analistas, sustentará a especulação financeira, não o crescimento produtivo.

“É uma dívida que não endivida”, ironizou Milei, contradizendo sua própria oposição histórica a acordos com o FMI. Para economistas, a narrativa é enganosa: “Trocar dívida interna por externa não reduz passivos, apenas transfere risco para o futuro”, critica um analista do Centro Econômico Argentino. Quando deputado, Milei classificou o empréstimo de Macri como “imoral”, mas agora defende que o ajuste atual “passará o custo para as futuras gerações”.

Milei argumenta que os recursos seriam utilizados para reforçar as reservas do Banco Central, permitindo que estas cheguem a US$ 50 bilhões com o apoio de outras entidades financeiras, como o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Corporação Andina de Fomento (CAF). “O aumento da dívida é imoral”, declarou o presidente, apesar de estar fechando um acordo que elevará significativamente os passivos argentinos.

Impactos para a população

Especialistas alertam que, caso o acordo seja concretizado, a Argentina poderá enfrentar um período prolongado de austeridade. O governo já implementou cortes drásticos em programas sociais e subsídios, e novos ajustes podem ser necessários para atender às exigências do FMI.

Dessa forma, os gigantescos sacrifícios feitos pela sociedade argentina para suportar a “motosserra” de Milei parecem não ter servido para nada, quando ele contrai novos empréstimos para impor ainda mais austeridade ao trabalhador. A explosão social já foi detonada com manifestações de aposentados sob brutal repressão, com promessas de escalar ainda mais.

As promessas de Milei de eliminar os controles cambiais a partir de janeiro de 2026 também geram preocupação. Muitos economistas preveem que a liberação abrupta do mercado cambial pode provocar um choque inflacionário e acentuar a crise econômica do país.

Economistas alertam que o acordo pode aprofundar a desigualdade. “Os recursos não financiarão saúde ou educação, mas sim a ‘bicicleta financeira’”, sustentando bancos e fundos especulativos. “É socializar perdas e privatizar ganhos”, resumiu a economista Mercedes Marcó del Pont. Com eleições legislativas em 2025, a popularidade de Milei depende de uma estabilização que parece distante. Enquanto o FMI aplaude as reformas, a Argentina enfrenta uma encruzilhada: ajuste brutal ou colapso total.

“O futuro é uma incógnita”, resume um líder sindical. “Mas uma coisa é certa: quem pagará a conta será o povo.”

Contradições e reações do mercado

A declaração de Milei sobre a dívida “que não endivida” gerou forte repercussão entre economistas e políticos. A ironia histórica salta aos olhos. Em 2022, Milei, então deputado, atacou o acordo do governo Fernández com o FMI, classificando novos endividamentos como “imorais”. Agora, defende um pacote que pode superar os US$ 44 bilhões recebidos por Mauricio Macri em 2018.

“É passar o ajuste para netos e bisnetos”, disparou a ex-presidente Cristina Kirchner nas redes. Para o Nobel de Economia Joseph Stiglitz, ouvido pela BBC, “a Argentina repete o ciclo: contrai dívida em dólar para tapar buracos, gera dependência e depois implora reestruturação”.

“Ele combate o ajuste que ajudou a criar”, disse Cristina, referindo-se ao voto de Milei contra o acordo de Macri em 2018. Já o ministro da Economia, Luis Caputo, admitiu que o FMI exige uma desvalorização de 3% a 7%, mas minimizou os efeitos: “Os dólares lastrearão a base monetária, tornando o peso mais forte”.

O presidente prometeu o fim dos controles cambiais em 1º de janeiro de 2025 e descartou desvalorização: “A taxa não tem margem para subir”. A justificativa? Com reservas de US$ 50 bilhões, o BCRA teria “lastro suficiente para cobrir toda a base monetária”.

Mas o mercado não se convenceu. Na semana passada, corridas ao dólar obrigaram o BCRA a queimar US$ 1 bilhão em reservas. Os mercados financeiros também reagiram com volatilidade. A incerteza em torno dos termos reais do acordo e das condições impostas pelo FMI fez com que a taxa de câmbio oscilasse, pressionando o Banco Central a intervir no mercado cambial.

A resposta do FMI

A porta-voz do FMI, Julie Kozack, negou os valores anunciados por Milei e seu ministro da Economia, Luis Caputo. “As negociações estão avançadas, mas o tamanho final do pacote será determinado pelo Conselho Executivo”, afirmou. O FMI não confirmou os prazos ou detalhes do financiamento. A contradição expõe a fragilidade das negociações e a estratégia do governo de antecipar dados para acalmar mercados em crise.

O porta-voz do FMI celebrou “resultados iniciais” das reformas de Milei, como recuperação econômica, alta de salários e queda da pobreza. Porém, a realidade argentina mostra outra face: aposentados recebem salários abaixo da pobreza, o equivalente a US$ 130 mensais, enquanto o governo reprime protestos com violência.

Enquanto o FMI elogia as reformas de Milei — “consolidação fiscal impressionante, inflação controlada”. Kozack chegou a afirmar que “a pobreza está diminuindo”, contradizendo dados do INDEC, que apontam 45% de argentinos na miséria. “O FMI celebra números macro enquanto ignora o desastre micro”, disparou o sociólogo Agustín Salvia.

Ainda assim, Caputo insistiu que a Argentina está prestes a assinar um acordo que permitirá maior estabilidade financeira e fortalecimento da moeda nacional. “Com isso, vamos acabar com o estresse do dólar na Argentina”, disse ele, sem detalhar as condições exatas impostas pelo FMI. Sua fala na Bolsa de Madri, porém, revelou o jogo de bastidores: “Precisávamos revelar o valor para conter a especulação”.

Os riscos ocultos: o que o acordo esconde

  1. Condicionalidades Veladas: O FMI exige “políticas fiscais, monetárias e cambiais coerentes”, linguagem que, na prática, pode significar mais cortes em subsídios e serviços públicos.
  2. Dependência Eterna: Os US$ 20 bilhões seriam desembolsados em parcelas, amarrando a Argentina a metas trimestrais. “É uma camisa de força: qualquer deslize cancela a torneira”, explica um ex-negociador da dívida.
  3. Efeito Eleitoral: Com legislativas em 2025, o governo usa o anúncio para projetar solvência, mas a falta de transparência alimenta desconfiança.

O endividamento com o FMI segue como um dos temas mais polêmicos do governo Milei. Enquanto o presidente sustenta que a medida não compromete o futuro do país, analistas apontam para os riscos de um novo ciclo de dependência financeira. Com a falta de clareza nos termos do acordo e as respostas contraditórias entre governo e FMI, a Argentina segue em um cenário de incerteza econômica e social.

O megaempréstimo de Milei com o FMI é um espelho das contradições argentinas: um governo ultraliberal que abraça a dívida, um FMI que elogia austeridade enquanto ignora o caos social, e uma população refém de ciclos históricos de crise.

Se o acordo se concretizar, trará alívio imediato às reservas, mas aprofundará a dependência externa. Se fracassar, acelerará a fuga de capitais. Em ambos os cenários, os argentinos pagarão a conta. Como sintetizou um cartaz nos protestos: “FMI + Milei = Mais pobres, mais endividados”. A pergunta que resta é: até quando os argentinos suportarão tanto sacrifício?

Com informações de Página 12

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