Marcha massiva toma a Plaza de Mayo com discurso contundente contra Milei

Neste 24 de março de 2025, data que marca os 49 anos do golpe civil-militar argentino, uma maré humana ocupou a Plaza de Mayo e ruas adjacentes em resposta ao governo de Javier Milei. Com faixas que exibiam rostos de desaparecidos e slogans como “Milei, lixo, você é a ditadura”, os manifestantes rechaçaram o questionamento oficial sobre o número de vítimas da repressão. 

Convocados por organizações de direitos humanos, sindicatos, partidos políticos e movimentos sociais, os participantes da tradicional marcha pelo Dia da Memória, Verdade e Justiça reivindicaram o número de 30 mil desaparecidos durante a ditadura militar e dirigiram fortes críticas ao governo de Javier Milei.

Multidão histórica e forte presença política

A mobilização deste ano superou a do ano passado, a primeira sob o governo ultraliberal. As colunas de manifestantes avançaram pelas diagonais Norte e Sul, chegando até a Avenida 9 de Julio. Enquanto os organizadores estimaram em 400.000 o número de participantes, projeções independentes apontaram um público ligeiramente inferior, mas ainda massivo.

Líderes políticos de oposição compareceram em peso, incluindo integrantes do governo da província de Buenos Aires, como Axel Kicillof, Daniel Gollán e Victoria Oneto. Héctor Daer liderou a coluna da CGT, acompanhado por outros dirigentes sindicais. Grupos como La Cámpora e a Frente Milagro Sala também marcaram presença com faixas e cânticos de protesto. A marcha reuniu desde kirchneristas até trotskistas, refletindo a união forçada pela repressão do governo.

Discurso inflamado e denúncias contra o governo

Do palco, montado de costas para a Casa Rosada, líderes históricos dos direitos humanos fizeram discursos enfáticos. Elia Espen, da Linha Fundadora das Mães da Praça de Maio, Estela de Carlotto, presidente das Avós da Praça de Maio, e Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz, relembraram o golpe militar de 1976 e reafirmaram a consigna: “Não esquecemos, não perdoamos e não nos reconciliamos”.

“Não nos reconciliamos com a impunidade”, declarou Carlotto, exigindo respostas sobre o paradeiro dos netos sequestrados.

“Chega de prisão domiciliar para genocidas!”, reforçou Espen, em referência aos repressores idosos que cumprem pena em casa.

Pérez Esquivel denunciou “demissões em massa e ataques aos aposentados”, citando o caso de Pablo Grillo, fotógrafo ferido por gás lacrimogêneo em protesto recente.

O documento lido no ato denunciou demissões no setor público e privado, exigiu aumentos para aposentados e cobrou justiça para Pablo Grillo, fotógrafo ferido durante repressão policial em uma marcha anterior. Gritos de “Bullrich fora!” ecoaram pela praça, exigindo a revogação do protocolo anti-protestos da ministra da Segurança.

Memória e resistência nas ruas

A marcha foi marcada por símbolos e homenagens às vítimas da ditadura. Manifestantes carregavam faixas com fotos e nomes dos desaparecidos, enquanto músicas de Los Piojos, Charly García e Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota tocavam nos alto-falantes. A tradicional frase “Mães da Praça, o povo vos abraça” foi acompanhada por cânticos contra Milei e a vice-presidente Victoria Villarruel, acusada de relativizar crimes da ditadura.

O evento também pressionou o governo pela desclassificação de arquivos secretos da SIDE (Secretaria de Inteligência de Estado) do período entre 1974 e 1983. A administração Milei anunciou a liberação desses documentos poucas horas antes da marcha, mas os manifestantes alertaram que isso deve servir para aprofundar investigações sobre desaparecidos e bebês sequestrados na ditadura.

A medida, porém, foi vista como cilada: Pablo Llonto (advogado de direitos humanos) disse que “Milei usa os mesmos arquivos que escondeu em 2024 para reescrever a história.” Verónica Torras (Memória Abierta) considera que “sem transparência, é mais uma jogada negacionista.” A SIDE, recriada por Milei em 2024, mantém ligação direta com a estrutura de inteligência da ditadura.

Embora houvesse unidade em torno da defesa da memória, setores radicalizados do Encuentro Memoria, Verdad y Justicia optaram por divulgar um documento próprio, distanciando-se de grupos kirchneristas. Mesmo assim, suas colunas marcharam com faixas que afirmavam: “Porque são 30.000, foi e é genocídio”.

A continuidade do clima de protestos virá com greve e eleições. As centrais sindicais prometem paralisação em 10 de abril contra o acordo de Milei com o FMI. A oposição tenta capitalizar o descontentamento, mas precisar articular um projeto unificado para disputar as vagas no Congresso Nacional.

Com a dispersão iniciada por volta das 17h30, ficou evidente que a mobilização deste ano não só reafirmou a luta por memória e justiça, mas também serviu como um forte recado político contra o governo Milei. A expectativa agora é sobre as possíveis reações do Executivo e novos desdobramentos na política argentina.

Pérez Esquivel expressou o tom da grande marcha nas últimas palavras de seu discurso: “Hoje, a Plaza mostrou que a ditadura não acabou. Milei é herdeiro de Videla, mas o povo não calará.”

O post Marcha massiva toma a Plaza de Mayo com discurso contundente contra Milei apareceu primeiro em Vermelho.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.