Juros sob ameaça de alta recorde pressionam economia e desagradam setor produtivo

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deve elevar nesta quarta-feira (19) a taxa básica de juros (Selic) em mais 1 ponto percentual, fixando-a em 14,25% , o maior patamar desde 2016. A decisão reflete as preocupações com a persistência inflacionária e o risco de “desancoragem” das expectativas, mas também reforça um cenário recessivo criticado pelas centrais sindicais brasileiras.

No dia anterior, manifestações lideradas por trabalhadores em várias capitais denunciaram os impactos negativos dos juros altos na economia real. Adilson Araújo, presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), indagou se “faz sentido uma economia em crescimento como a nossa, que segundo a OCDE é uma das economias que mais cresceu no mundo, seguir praticando uma taxa de juros absurda?”, inviabilizando o desenvolvimento e corroendo os avanços conquistados nas áreas de emprego e renda.

“Toda e qualquer economia do mundo está indicando que para enfrentar o problema da grave recessão é necessário reduzir juros, melhorar o consumo das famílias e indicar um processo de reindustrialização”, explicou Araújo, durante ato em frente ao Banco Central em São Paulo. Para ele, a política monetária atual beneficia sobretudo o setor financeiro, enquanto penaliza o investimento produtivo e amplia as desigualdades sociais.

Pressão fiscal e câmbio: Um equilíbrio delicado

As justificativas para manter a Selic em níveis elevados incluem a necessidade de conter a inflação e garantir a estabilidade cambial. No entanto, analistas destacam que o dólar tem mostrado sinais de estabilização, fechando em R$ 5,6635 na véspera da decisão do Copom – a menor cotação desde outubro de 2023.

Segundo Igor Barenboim, economista-chefe da Reach Capital, o comportamento do câmbio pode ser um fator determinante para decisões menos restritivas no futuro. “Um dólar em retração seria uma boa justificativa para uma política monetária menos restritiva”, afirmou, sugerindo que o Banco Central poderia adotar um tom mais “dovish” nas próximas reuniões.

Apesar disso, a inflação ainda apresenta sinais de “desancoragem”, segundo instituições financeiras interessadas em manter o alto patamar favorável à especulação. O Itaú “alerta” que, embora haja melhora na dinâmica recente, os riscos inflacionários permanecem elevados. “Esperamos que o Copom continue a descrever um balanço de riscos assimétrico para cima para a inflação”, disse a equipe liderada por Mario Mesquita.

Projeções para o futuro: Recessão ainda distante, mas riscos aumentam

Embora analistas considerem uma recessão em 2025 “muito improvável”, há consenso de que a economia brasileira enfrentará desaceleração nos próximos meses. A XP projeta que o Copom sinalizará uma redução no ritmo de ajuste da Selic nas próximas reuniões, com a taxa básica de juros chegando a 15,50% até junho.

Sérgio Goldenstein, economista-chefe da Warren, destaca que o comunicado do BC será crucial para avaliar o ritmo futuro de aperto monetário. “O Copom deve indicar que antevê como mais adequada, neste momento, a redução do ritmo de ajuste da taxa básica de juros na reunião de maio”, afirmou.

No entanto, os riscos permanecem elevados. A persistência inflacionária, somada às incertezas globais com o início do segundo mandato de Donald Trump, pode cobrar cautela redobrada do Banco Central.

Um ciclo de ajuste em fase crítica

Com a Selic em níveis recordes, o Brasil enfrenta um dilema entre controlar a inflação e estimular o crescimento econômico. Isso refletido na contradição entre um governo que critica abertamente a política monetária recessiva de um Banco Central “autônomo” que deveria estar subordinado à macroeconomia do Ministério da Fazenda, não a do mercado financeiro especulador. Enquanto o mercado financeiro celebra a estabilização cambial e a perspectiva de juros menos agressivos no médio prazo, os trabalhadores continuam pressionando por políticas que priorizem o investimento produtivo e a distribuição de renda.

Para as centrais sindicais, a mensagem é clara: sem uma reversão na trajetória de juros altos, o país corre o risco de aprofundar desigualdades e comprometer o potencial de desenvolvimento. “Viva o povo brasileiro, viva os trabalhadores, viva o presidente Lula!”, conclamou Miguel Torres, sintetizando o apelo por um modelo econômico mais inclusivo.

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