Túnel Santos-Guarujá, maior obra do PAC, faz Tarcísio elogiar republicanismo de Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), anunciaram nesta quinta-feira (27) o edital para construção do túnel imerso que conectará Santos e Guarujá, no litoral paulista. A licitação está prevista para ocorrer em 1º de agosto, na B3, a bolsa de valores brasileira, e contará com investimentos de R$ 5,96 bilhões em uma parceria público-privada (PPP).

O empreendimento, inserido no Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Lula 3, evidencia um raro momento de cooperação entre gestões que frequentemente se encontram em lados opostos do espectro político. Lula enfatizou a importância da colaboração entre os entes federativos, defendendo que o governo federal não deve utilizar sua capacidade de investimento como ferramenta política. “A normalidade é a relação civilizada entre os entes federados”, declarou.

Em evento no Porto de Santos, o presidente Luis Inácio Lula da Silva e o governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) evitaram confrontos. Lula defendeu “relação civilizada” entre líderes, enquanto Tarcísio agradeceu ao petista por priorizar a obra, projetada há 101 anos. O tom de união, porém, contrastou com vaias a republicanos e elogios sindicais a Lula que deixaram o governador em silêncio.

Ao elogiar Lula publicamente, o governador sinaliza pragmatismo, mas mantém ambiguidade sobre futuro político. Enquanto aliados veem chance de projetá-lo como “gestor acima de ideologias”, o entorno petista enxerga tentativa de amortecer críticas à gestão estadual.

Obra centenária sai do papel

Trajeto do túnel reduz travessia de até duas horas para dois minutos.

O governador Tarcísio de Freitas destacou que a ideia do túnel remonta a 1924 e que sua execução é aguardada há mais de um século. Segundo ele, o túnel é a “cereja do bolo” de diversas intervenções na região. O projeto prevê um túnel imerso de 1,5 km de extensão, com 870 metros submersos, e inclui três faixas de rolamento por sentido, uma delas dedicada ao Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), além de acessos para pedestres e ciclistas.

Atualmente, a travessia entre Santos e Guarujá é feita por balsas, que transportam aproximadamente 23 mil veículos diariamente, e um fluxo de 78 mil pessoas/dia, ou pela rodovia Cônego Domenico Rangoni. A demora pode variar de 20 minutos a duas horas, enquanto o túnel permitirá que o trajeto seja concluído em menos de dois minutos. A obra depende agora do leilão de agosto na B3 – teste crucial para a credibilidade do novo PAC.

Cerimônia marcada por gestos de união e tensão política

O evento contou com a presença de ministros do governo federal, prefeitos da região e do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). O tom de parceria foi enfatizado por diversos discursos. O prefeito de Guarujá, Farid Madi (Podemos), destacou que Lula e Tarcísio “demonstraram espírito público, olhando para frente, para o interesse do Brasil”.

No entanto, a cerimônia também registrou momentos de desconforto político. O presidente da Federação Nacional dos Portuários, Sergio Gianetto, puxou um coro de apoio a Lula, ao qual Tarcísio reagiu com frieza. Além disso, sindicalistas gritaram “sem anistia” enquanto o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), discursava, em referência às recentes denúncias contra Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe.

O gesto revelou o desconforto latente entre bases petistas e bolsonaristas, mesmo com a retórica de conciliação no palco.

Tarcísio e o dilema presidencial para 2026

A presença conjunta de Lula e Tarcísio ganha contornos políticos ainda mais fortes no contexto atual. O governador de São Paulo é apontado como principal nome para suceder Bolsonaro em uma eventual candidatura presidencial em 2026, caso mantenha sua inelegibilidade até 2030. Apesar disso, Tarcísio tem reiterado que não será candidato e segue defendendo seu padrinho político. Em recente declaração, classificou a denúncia contra Bolsonaro como “forçação de barra” e “revanchismo”, enquanto Lula afirmou que, se comprovada a culpa do ex-presidente, “só tem uma saída: ser preso”.

A concessão do túnel, agora sob a responsabilidade do governo de São Paulo, foi definida após reunião entre Lula e Tarcísio em 12 de fevereiro, em Brasília, fora das agendas oficiais. No encontro, o governador elogiou a “sensibilidade” do governo federal ao aceitar a proposta estadual para acelerar o leilão.

TCU, BNDES e “cereja do bolo”: bastidores da divisão de custos

A obra, classificada como de “mobilidade urbana”, será fiscalizada pelo estado, após aval do Tribunal de Contas da União. Além do túnel, governo federal liberou R$ 2,4 bilhões do BNDES para expansão do Metrô de SP e renovou concessão do Porto de São Sebastião até 2057 – movimentos interpretados como moeda de troca para viabilizar a parceria.

Além do túnel, a cerimônia também marcou o anúncio do financiamento de R$ 2,4 bilhões do BNDES para a expansão da Linha 2-Verde do metrô de São Paulo, que será prolongada em 8,3 km até a estação Penha. Outra medida relevante foi a celebração do acordo extrajudicial de recuperação do fundo de pensão Portus, beneficiando 8,5 mil trabalhadores portuários.

A construção do túnel Santos-Guarujá, a ser iniciada em 2026 com previsão de duração de cinco anos, promete transformar a infraestrutura da Baixada Santista. Contudo, a cerimônia de lançamento também evidenciou os desafios políticos que permeiam a relação entre Lula e Tarcísio, num momento em que o futuro da direita no Brasil segue indefinido.

Contexto político estratégico

A cerimônia simboliza a tentativa de Lula de recompor alianças com governadores de oposição, como parte da estratégia de viabilizar o PAC em meio a um Congresso fragmentado.

Para Tarcísio, a parceria tenta consolidar sua imagem de “administrador técnico”, essencial para eventual ambição nacional, ao mesmo tempo que o coloca na corda bamba com a base bolsonarista.

O túnel surge como vitrine para o modelo de PPPs, bandeira de Tarcísio, mas testará a capacidade de Lula de equilibrar investimentos privados e controle estatal – tema sensível de seu governo.

O leilão de agosto na B3 definirá o consórcio responsável pela obra, com concessão de 30 anos e pedágio.

A eficácia da cooperação Lula-Tarcísio será medida pela capacidade de manter o cronograma (início em 2026) em meio a eleições presidenciais e o acirramento da polarização nacional.

O post Túnel Santos-Guarujá, maior obra do PAC, faz Tarcísio elogiar republicanismo de Lula apareceu primeiro em Vermelho.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.