Magno, para o Carnaval: A La Ursa quer dinheiro

Por Aldo Paes Barreto

Quando a Guerra Fria dividiu o mundo, entre 1945 e 1991, depois do fim da II Guerra Mundial, colocou em polos opostos o capitalismo, liderado pelos Estados Unidos, e o regime socialista, defendido pela União Soviética. A disputa contaminou, de alguma forma, todos os habitantes deste planeta Terra. Nós, recifenses, tomávamos partido em cada eleição, em cada discussão na esquina. Não havia espaço para os sensatos ou pacifistas.

Nesse clima de radicalismo, a folclorista norte-americana Katarina Real desembarcou no Recife, interessada em estudar nossas raízes culturais. Na época, Katarina foi recebida como espiã da CIA. Não era, nem nunca foi. Desde que chegou, em 1961, até seu falecimento, em 2001, nunca deixou de manter contato com os amigos e com as coisas de Pernambuco, prestando inestimáveis serviços às nossas heranças culturais. Repetia sempre seu amor ao Recife, que ela via do alto do edifício São Luiz – a “Torre do Frevo” –, onde morou até voltar aos Estados Unidos.

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Cidadã recifense por direito de conquista, Katarina Real deu a maior contribuição aos estudos do maracatu, do frevo, da nossa alegria coletiva, deixando enorme legado iconográfico, hoje guardado na Fundação Joaquim Nabuco. Estão lá documentados e estudados os desfiles dos clubes de frevo, blocos, caboclinhos, maracatus, passistas solitários e a manifestação carnavalesca que não tem raízes nem nos nossos antepassados indígenas nem na Mãe-África: a La Ursa. Seria de origem italiana.

Diferente do frevo, dançado individualmente e, paradoxalmente, uma convulsiva manifestação coletiva, a La Ursa apresenta apenas três personagens pobremente vestidos. Querem brincar, tomar uns goles de cachaça e receber alguns trocados com o refrão repetido: “A La Ursa quer dinheiro, quem não der é pirangueiro.” O urso é representado por um homem fantasiado do animal; o caçador, armado, segura o urso; e o dono do animal, recolhendo as contribuições, conduz uma maleta que lembra mais um cobrador de impostos. Alguns poucos músicos seguem o cortejo, e o acompanhamento cresce a cada rua, quando as pessoas vão se incorporando à brincadeira.

Em meados da década de 1960, a La Ursa quase desapareceu do Recife, incendiada com seu personagem principal condenado a morrer na fogueira. Nas ruas da cidade, por onde passava, não foram poucas as vezes em que gente maldosa jogava querosene ou álcool e acendia fósforos para atingir os brincantes. Em 1965, por conta dos incendiários, as La Ursas foram proibidas. Dos criminosos, ninguém sabe. Dois deles quase mataram um pobre urso de Água Fria. Escapou por pouco. Os dois marginais incendiários nunca foram identificados.

Caso fosse nos dias de hoje, eu teria pelo menos uma sugestão para nominá-los: “Trump” e “Musk”. Um conjunto de nomes sonoros para a dupla do barulho. Como aqueles maldosos, estes novos incendiários também querem tocar fogo no mundo, punindo quem se diverte, quem diverte os outros ou quem quer apenas trabalhar e receber justa remuneração para alegrar os quatro dias de folia e sobreviver aos dias restantes do ano.

Tudo em paz. Sem guerra, sem fogo, sem maldades.

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